Uma coisa em que todos os economistas concordam

Não é comum, mas acontece: por vezes, os economistas estão mesmo de acordo uns com os outros. E mesmo que o tema em questão também seja bastante propício a este tipo de consenso, vale a pena assinalar o momento.

A questão em causa é o plano de descida de impostos de Donald Trump, que já foi anunciado (pelo próprio, claro) como o maior da história fiscal americana. O plano está “detalhado” num documento de uma página entregue à imprensa, e inclui cortes sobre as taxas marginais de imposto sobre rendimentos singulares, redução do número de escalões, diminuição do imposto sobre as empresas, eliminação de benefícios e deduções dispersas (os famosos loopholes), entre outros elementos. O objectivo é dar gás ao crescimento económico, acelerando o PIB de taxas na casa dos 2-2,5% para expansões superiores a 3%, o que segundo os cálculos da Casa Branca seria suficiente para o plano de descida de impostos ser orçamentalmente neutro.

O problema – que começa a tornar-se recorrente com as declarações do novo Presidente americano – é que ninguém acredita nisso.

O IGM Forum é um painel de economistas contactado regularmente pela Universidade de Chicago, ao qual são colocadas questões económicas de relevo. O objectivo é perceber com rigor quais são as opiniões “da classe” e determinar em que áreas há consensos ou não, uma vez que os media habituais são por vezes demasiado lestos a tomar o todo pela parte e a identificar como maioritárias visões que só prevalecem em nichos específicos (um exemplo invertido: a importância do keynesianismo na economia). A última fornada de perguntas incidiu sobre o plano de Trump, e as respostas não foram meigas: inquiridos em relação à possibilidade de o plano se pagar a si mesmo, todos torceram o nariz.

Os leitores mais curiosos quererão com certeza saber quem foi a ave rara que deu o peito às balas e aceitou ir contra o consenso reinante. O seu nome é Bengt Holmstrom, economista do MIT, mas a razão pela qual este se apartou do resto dos colegas tem pouco que ver com a sua avaliação real do plano de Trump. Como se lê mais à frente no relatório, tudo não passa de um… erro de reporte.

Mas o IGM Forum também foi inquirido sobre reformas fiscais passadas. Os economistas tiveram de responder até que ponto acreditavam que as grandes mudanças no código fiscal tinham, em décadas anteriores, gerado um impacto económico suficiente para serem neutras em termos de receita – uma ideia que Reagan defendeu nos anos 80 com recurso à célebre Curva de Laffer. (Nota: a Curva de Laffer nunca ganhou grande tracção na academia, e nos últimos anos têm-se acumulado os estudos a mostrar que a reacção da generalidade dos trabalhadores a descidas de impostos marginais varia entre o escasso, o quase-nada e o nulo – por exemplo, aqui).

Ainda assim, o consenso reinante é notável: nenhum acredita que os cortes de impostos do passado se pagaram a si mesmos. Neste contexto, a reacção da comunidade às ideias de Trump não devia surpreender. Se os projectos de cortes de impostos nunca cumpriram as expectativas no passado, porque devia hoje ser diferente?

 



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