Turquia e Ocidente: um casamento por conveniência

O presidencialismo galopante afasta-a da Europa, o islamismo afasta-a dos EUA e a derrota na Síria afasta-a da Rússia. Mas, para onde quer que vá, a Turquia será sempre a cintura de segurança do Ocidente.

O sonho de uma Turquia alinhada com os propósitos do Ocidente – quaisquer que eles fossem – morreu na noite de 15 de julho do ano passado: encenado ou não, o golpe de Estado falhado em Ancara e em Istambul, a prisão dos revoltosos e o afastamento em massa dos adversários políticos de Recep Erdogan, revelaram que o presidente tem o país nas mãos.

Apesar da esperança que o Ocidente demonstrou ter tido no golpe – recorde-se que a chanceler Angela Merkel demorou uma eternidade a telefonar para Ancara – não passou pela estratégia de nenhum país ocidental recusar a omnipresença de Erdogan: bem basta a selva incontrolável que se instalou em alguns países assolados pelos ventos da ‘primavera árabe’ (como a Líbia) ou a marcha-atrás dos que, tendo-a vivido, decidiram regressar às águas turvas dos governos com mão de ferro (como o Egito).

Os meses que precederam a noite de 15 de julho de 2016 foram a antecâmara do que entretanto se tornou facilmente previsível: Erdogan conseguiu ter outra vez o país do seu lado para alterar a Constituição e dela se servir como rampa de lançamento do presidencialismo. Além disso, a insistência no islamismo deixou de ser uma curiosidade do regime para passar a ser uma imposição conceptual. O novo plano para o sistema educativo do Estado é disso um exemplo: o ‘darwinismo’ está a desaparecer dos compêndios, o conceito de Jihad neles volta a ter lugar e o islamismo sunita mesclado ou mesmo disfarçado de nacionalismo é a argamassa que envolve tudo – segundo as queixas de alguns sindicatos de professores, citados nos jornais turcos. O próprio Mustafa Kemal Ataturk – o pai da república, que conseguiu fazer renascer a Turquia das cinzas do império Otomano, carbonizado pela I Grande Guerra – parece estar paulatinamente a desaparecer dos lugares cimeiros da história.

O presidencialismo afasta Erdogan da União Europeia, ao mesmo tempo que a islamização o afasta dos Estados Unidos – assim como a intromissão na guerra da Síria o afastou dos russos, mas nada disso parece ser suficiente para reter a vontade do presidente em transformar a Turquia numa potência regional.

O fantasma do Irão ou a estratégia do telefone
O embaixador Seixas da Costa, em declarações ao Jornal Económico, é definitivo: Erdogan vai conseguir que a Turquia seja uma potência regional, sem a qual nenhum problema do Médio Oriente terá uma solução minimamente duradoura. E a causa, explica, é o Irão. Novamente o Irão, país que assinou um acordo sobre armamento nuclear aceitável para o Ocidente, mas que posteriormente passou a fazer parte da lista de sete países muçulmanos que o presidente dos EUA, Donald Trump, queria (e talvez venha a conseguir) ver temporariamente fora do perímetro interno do seu país.

“Num momento em que o Ocidente se retraiu face aos problemas no Médio Oriente – algo que começou com o antigo presidente dos EUA, Barack Obama – nomeadamente a guerra na Síria, a Turquia ‘ofereceu-se’ para ser a potência emergente na região”, diz Seixas da Costa. Desgraçadamente, o lugar de potência dominante também é cobiçado pelo Irão (xiita, alinhado com Moscovo, mesmo que apenas temporariamente, e o quarto maior país do mundo em termos de reservas de petróleo).

É aí que a posição da Turquia ganha relevo para o Ocidente: “será sempre um país tampão” entre a fronteira leste do mundo Ocidental e a fronteira oeste do Médio Oriente. E, nesse quadro, ninguém de bom senso quer uma Turquia que padeça dos mesmos males internos que, por exemplo, uma Líbia. “E isso explica que ao Ocidente, se calhar, dê jeito ter em Ancara aquilo a que se pode chamar uma ‘democratura’, qualquer coisa entre a democracia e a ditadura, mas que faça com que o Ocidente saiba sempre quem lhe atende o telefone quando liga para lá”.

A Turquia foi desde sempre um Estado que apostou “em alianças internacionais estranhas mas hábeis e pragmáticas do ponto de vista da diplomacia”, recorda Seixas da Costa. “É por isso que as relações entre Ancara e Moscovo têm vindo a suavizar-se e mesmo as relações da Turquia com Israel parecem estar a passar por um bom momento”. “Só falta saber, porque isso ainda não foi dito, o que pensa Donald Trump sobre o assunto”, refere ainda.

Esta é claramente, na ótica de Seixas da Costa, uma evidência de que a Turquia, apesar de todas as derrotas, vai ser ‘convocada’ para assumir esse papel de Estado-tampão entre dois mundos que, quando não estão em guerra declarada, se preparam para quando isso vier a acontecer.

O elo mais fraco
Sobrevive ainda uma questão. “A Turquia aproveitou a sua ação na guerra da Síria para tentar resolver o problema dos curdos. Atacou os curdos sírios com o álibi da luta contra o terrorismo, ao mesmo tempo que tentava resolver o problema interno dos curdos turcos; só não tocou nos curdos iranianos”, refere Seixas da Costa. Pelo que é lícito que se coloque a questão: que vai o Ocidente fazer, e a União Europeia em particular, se a Turquia optar por uma solução final para o problema curdo, como fez em 1915 para a questão dos arménios?

 

[Notícia publicada na edição impressa de 16 de fevereiro]



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