Têm síndrome de Asperger e renovaram contratos no Santander e na Accenture

A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger tem um Programa de Empregabilidade no qual estabelece parcerias com empresas de forma a inserir jovens com esta perturbação neurocomportamental no mercado de trabalho. Em entrevista ao Jornal Económico, a presidente da APSA, Piedade Líbano Monteiro, assegura que “é um mito dizer que as empresas não querem ouvir falar dos programas de empregabilidade para pessoas com deficiências”.

Cristina Bernardo

A taxa de desemprego de pessoas com síndrome de Asperger ronda os 84% a nível mundial, mas o Programa Empregabilidade da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) tem, neste momento, uma taxa de empregabilidade de cerca de 80%. Accenture, Santander, REN, Jerónimo Martins, Quinta d’Avó ou Hospital da Luz são algumas das 12 empresas que recebem jovens com esta perturbação neurocomportamental nos seus programas de estágios.

Recrutamento, medida de responsabilidade social ou boa vontade, algo é certo: a inserção no mercado de trabalho é crucial para o desenvolvimento destes jovens. “Há um mito que é o de dizer que as empresas não querem saber dos programas de empregabilidade para pessoas com deficiências”, garante a presidente da APSA, Piedade Líbano Monteiro, em entrevista ao Jornal Económico.

O défice de sociabilização do qual padecem não é impedimento para exercerem funções em multinacionais, assegura a entidade, pois mais de uma dezena de jovens conseguiu contrato de trabalho através deste programa e, pelo menos, seis correspondem a renovações, como nos casos do banco Santander e da consultora Accenture.

“O nosso programa não tem obrigatoriedade de contratação e não tem como objetivo substituir o Instituto do Emprego e Formação Profissional. Cinge-se a fazer um trabalho de campo e mudar mentalidades. Para nós é muito mais importante, por exemplo, ter um jovem que tenha experiência na REN com funções administrativas e, a seguir, faça a check-list de várias situações na Sonae Sierra”, exemplifica a presidente da APSA.

A porta-voz da associação que acompanha as pessoas com esta síndrome e as suas famílias afirma que prepara as reuniões que têm com as empresas e realiza uma prospeção de mercado sobre quais poderão ter capacidade de lhes ‘abrir portas’. Apesar de contactarem o departamento de Recursos Humanos das firmas para as ‘capacitar’ para receber os jovens, a APSA não pretende que modifiquem a sua estrutura.

Questionada sobre as empresas que recebem os seus utentes devido a exigências de responsabilidade social, Piedade Monteiro explica que têm situações de todos os tipos e confessa que, recentemente, assistiu a um desses casos: “Acabou a experiência de três meses, disseram que tinham muito trabalho, mas ficaram com a quota preenchida de responsabilidade social em 2017”.

Do pátio da Casa Grande para os escritórios

A Casa Grande – espaço que acolhe jovens dos 16 aos 18 anos – surge para responder à seguinte dúvida das famílias: «Os meus filhos crescem, saem da escola e vão para onde?». A sociedade não tinha solução para os jovens com esta síndrome que acabassem o ensino obrigatório (12º ano) e que não soubessem se, depois, poderiam seguir para um curso superior, profissional ou ingressar na vida laboral, uma vez que os apoios terminavam com a escola.

“É na escola que os professores e as famílias se começam a aperceber-se que há aqui uma diferença na criança com cinco ou seis anos e os outros colegas com a mesma idade. Para termos uma caracterização clara e um diagnóstico consistente, terá de ser feito nessa altura”, conta a dirigente desta Instituição Particular de Solidariedade Social.

Piedade Monteiro refere que começaram por testar o programa através de trabalhos e funções rotineiras, no interior da própria sede da associação. “Ir às compras, contactar com o banco, dirigir-se aos Correios. A partir daí, tomámos a peito o Programa de Empregabilidade e, inicialmente com a REN e a Quinta d’Avó, experimentámos inseri-los em contexto de trabalho, em pé de igualdade com todos os outros empregados”, diz.

A APSA organiza treinos de entrevistas, o “Tempo de Pais”, serviço semanal em que Piedade ouve os pais e os aconselha, consultas “Escutar e Orientar”, que diz respeito a um acompanhamento mais técnico e clínico, entre outras iniciativas, como encontros e seminários.

“Estes meninos têm problemas em dizer que têm certas vocações ou preferências. Mesmo que o jovem tenha uma tendência e excelentes notas nesta ou naquela área, não quer dizer que se feche só nessa. É preciso dar a oportunidade da experiência, porque eles sozinhos não vão arriscar”, explica a responsável, lembrando que a organização acreditou que o futuro destes adolescentes não terminava com o final do ensino secundário.

Prestes a completar 15 anos, a Casa Grande foi, assim, a iniciativa com mais impacto na associação. De lágrimas nos olhos, Piedade Monteiro conta que, durante a construção desta casa, viveu das fases mais difíceis da sua vida, com medo constante de que o projeto não chegasse a bom porto.




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