Por mais complexos e bonitos que sejam os modelos de avaliação de ativos financeiros ou os modelos de previsões macroeconómicas, no final do dia, grande parte do valor dos ativos estão dependentes de algo que é intrinsecamente incerto.

O futuro… Não só é incerto porque sabemos pouco acerca do que lá vai acontecer, mas também porque o que hoje achamos que lá vai acontecer tem por vezes influência no que lá realmente acontece.

O filme The Butterfly Effect faz uma ilustração engraçada deste conceito, mas é a George Soros que agradecemos a chamada de atenção para que as decisões correntes dos investidores podem ter particular impacto para a economia e para os preços dos activos financeiros no futuro. Como se o facto de todos vestirem fato de banho hoje fizesse com que amanhã raiasse um esplendido sol… Isto para dizer que o futuro da economia e dos mercados financeiros é incerto a um nível mais avançado do que aparenta à primeira vista.

O que os investidores fazem perante um futuro intrinsecamente incerto é construir e ajustar expetativas à medida que ele vai surgindo. Uns melhor outros pior, mas todos sujeitos às emoções e sentimentos que nos são características enquanto seres humanos… O sentimento de mercado é um tópico que é altamente negligenciado pelas escolas de negócios e finanças, mas é provavelmente o factor que tem mais influência no preço dos ativos a curto prazo.

O sentimento de mercado não é propriamente fácil de medir. Existem alguns indicadores quantitativos que tentam, mas a verdade é que são rudimentares. Na minha opinião, a melhor maneira de construir uma percepção mais assertiva acerca do sentimento de mercado é simplesmente estando em contacto com os participantes. Ler o maior número possível de opiniões de analistas e colunistas, ouvir o maior número possível de investidores – sempre com um filtro ligado. Obviamente que o universo de participantes que conseguimos cobrir individualmente é assustadoramente pequeno face ao mercado como um todo, mas acho que ainda assim é representativo. Aqueles que ouvimos também eles estiveram em contacto com dezenas ou centenas de opiniões, que influenciaram a sua própria visão – e por aí em diante.

Dito isto – e passando ao que interessa – a percepção atual é que o sentimento de mercado continua a ser de receio generalizado. Alguns apontam para as avaliações dos mercados acionistas em termos de múltiplos, outros apontam para a trajetória do endividamento continuar virada para cima, outros para a polarização política, outros para os riscos da economia chinesa, entre outros motivos de preocupação.

Se o sentimento é de receio, é provável que as posições em liquidez sejam significativas. Se as posições em liquidez são significativas, é improvável que haja pressão vendedora.

No início de 2017, quando os índices norte-americanos marcaram pela primeira vez no ano novos máximos históricos, escrevi um artigo para esta coluna (“Não temam os máximos”) em que mostrava uma perspetiva pela qual os índices acionistas eram uma opção de investimento atrativa face às restantes e tentava reverter os receios que já na altura existiam. Hoje os índices acionistas estão um pouco mais caros, mas a verdade é que continuam a ser uma opção de investimento interessante. O facto de o receio continuar latente dá descanso, porque a pressão vendedora não irá surgir tão cedo…



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