Sem querer subir juros, Inglaterra pode olhar para outras vias de controlo da inflação

O Comité de Política Monetária britânico vai continuar esta quinta-feira o debate sobre quando tirar as taxas de juro de referência dos atuais mínimos históricos. A subida dos preços e a desvalorização da libra são agora problemas menores que em junho, mas o banco liderado por Mark Carney poderá querer tomar já alguns passos em direção à normalização.

No final de junho, Mark Carney, o canadiano que governa o Banco de Inglaterra (BoE), previu que o debate sobre a remoção do estímulos monetários iria continuar. O discurso, proferido em Sintra, acontecia logo a seguir a uma reunião renhida em que os membros do Comité de Política Monetária (CPM) discordaram sobre o próximo passo, mas que resultou numa vantagem para os que defenderam a manutenção das taxas de juro em mínimos históricos.

Esta quinta-feira há novo encontro, menos pressionado pela inflação. Em plenas negociações sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, o assunto é incontornável e Carney, que tem sido parco em comentários sobre o Brexit, já disse que o BoE está à espera de um ponto de equilíbrio entre o desvio de produção e a inflação para ajustar os estímulos à economia.

Depois de cortes entre 2007 e 2009, para reagir à crise económica, as taxas de juro estiveram congeladas em 0,5% durante sete anos. Em agosto de 2016, no rescaldo do referendo que ditou o Brexit, o BoE voltou a cortar a taxa de juro para 0,25%. Uma das principais consequências da votação foi a forte desvalorização da libra esterlina, que levou a uma subida dos preços para acima da meta do BoE de uma inflação de 2%. Em abril e maio, este indicador atingiu os 2,9%, o que intensificou o debate sobre o momento certo para aumentar as taxas de juro.

Na última reunião, três dos oito membros do comité votaram a favor de uma subida, mas os restantes, incluindo Carney, não o permitiram. Desta vez, a votação deverá continuar a privilegiar os doves, com as sondagens tanto da Reuters como da Bloomberg a preverem um resultado de seis contra dois.

“Esperamos que o Banco de Inglaterra se mantenha em espera. A retórica do banco tem-se tornado mais hawkish nos últimos meses, devido à resiliência do mercado de trabalho e à subida na inflação”, explicou Seamus Mac Gorain, da JP Morgan Asset Management, ao Business Insider. Apesar disso, diz que o BoE “irá resistir a apertar a política esta semana e, provavelmente, até ao final do ano”.

Dor de cabeça da inflação atenua

A grande razão para a manutenção dos juros de referência poderá estar numa pressão menor dos preços. Em junho, a inflação inverteu a tendência dos meses anteriores e ficou em 2,6%, dando margem de manobra ao banco central. Segundo Mike Van Dulken, da Accendo Markets, “o Banco de Inglaterra vai querer ver se a inflação atenua mais depois de ter descido de máximos de cinco anos”.

Após ter resistido de forma surpreendente ao resultado do referendo, principalmente com as exportações a beneficiarem da libra enfraquecida, a economia britânica começa a dar sinais de desaceleração. No segundo trimestre do ano, o produto interno bruto expandiu, na comparação em cadeia, somente 0,3% e 1,7%, em termos anuais, pressionado pelos setores da construção e da indústria. Até a libra inverteu a tendência, tendo valorizado mais de 3% face ao dólar, desde o último encontro.

Além da reunião do CPM, o Banco de Inglaterra vai também divulgar esta quinta-feira uma atualização das previsões para a inflação e para o crescimento económico, com os analistas a esperarem previsões em baixa.

Elenco mais favorável a Carney

Não só se alterou a conjuntura, como também a composição do comité, o que terá influência na decisão. Kristin Forbes, que tinha votado a favor de um aumento das taxas em junho, abandonou o CPM e foi substituída por Silvana Tenreyro. Apesar de não ser garantido, o novo elemento deverá alinhar com Carney. “Os mais recentes comentários de Ian McCafferty e Michael Sanders sugerem que vão continuar a votar por subida das taxas de juro esta semana, mas duvidamos que quaisquer dos outros seis membros se juntem a eles”, disse Samuel Tombs, da Pantheon Macroeconomics, sobre o cenário desta quinta-feira.

“O historial de votações do novo membro externo Tenreyro no CPM das Ilhas Maurícias sugerem tendências dovish“, adianta. “Enquanto o economista-chefe [do BoE] Andy Haldane disse em junho que seria prudente apertar a política na segunda metade do ano, essas declarações foram feitas antes do recuo da inflação em junho”.

Como Carney previu, o debate sobre a normalização da política monetária deverá continuar. Até porque o próprio salientou em julho que as previsões do quadro geral da inflação não mudaram com os números do mês anterior. No entanto, vários alertam que a janela de oportunidade para o BoE fazer esse aumento poderá estar a fechar. Os investidores consultados pela Bloomberg também parecem agora menos convencidos sobre uma subida dos juros este ano, com 40% a preverem esse cenário, quando há um mês 56% dos investidores viam a alteração a acontecer.

Na ausência da hipótese de alterar as taxas de juro, o comité poderá optar por outra via. O consenso entre os analistas aponta para que os membros do comité decidam não prolongar, além de fevereiro de 2018, o Term Funding Scheme (TFS), um mecanismo de incentivo introduzido para assegurar a transmissão das baixas taxas de juro de referência para a economia real, ou seja, famílias e empresas. O TFS já atingiu três quartos do objetivo de cem mil milhões de libras.





Mais notícias