A evolução tecnológica tem sido historicamente a principal alavanca do bem-estar social, mas sempre criou vítimas circunstanciais que a sociedade tem de reconhecer e proteger.

Embora o drama dos deslocados pelas guerras seja infinitamente superior, a transformação digital da sociedade começa a ter um impacto muito significativo na vida quotidiana das pessoas e a criar as suas primeiras vítimas reais entre os coletivos que não conseguem acompanhar o ritmo crescente da mudança. Haverá quem pense que este é um problema banal, próprio dos países desenvolvidos em que a luta pela sobrevivência não é a prioridade vital, mas não deverá ser assim para quem, ao nosso redor, vê as suas opções progressivamente limitadas. Do relacionamento administrativo com o Estado até às oportunidades laborais ou ao aproveitamento das novas funcionalidades nas “cidades inteligentes”, existem cada vez mais serviços cujo acesso prioritário está desmaterializado e cujo usufruto depende da habilidade digital de cada indivíduo.

Conforme a transformação digital das nossas vidas avança, a sociedade começa a segmentar-se em grupos que se posicionam em relação a esta realidade. Em extremos opostos, encontram-se os negacionistas da Internet, que procuram um isolamento voluntário de qualquer expressão digital; e os “digitalistas” que, com o seu tecno-otimismo, vendem a utopia de um mundo infinitamente melhor em que as tecnologias exponenciais difundam as vantagens do progresso digital sem limites físicos. Entre ambos os coletivos, temos segmentos populacionais mais ou menos resistentes à digitalização, mas que partilham autonomia decisional, o que não é o caso dos excluídos da transformação digital que, por questões de idade ou formação, não conseguem acompanhar minimamente esta mudança. Estimo, no mínimo, em dois milhões de pessoas a dimensão deste coletivo em Portugal, o que dá ideia do alcance do problema.

A evolução tecnológica tem sido historicamente a principal alavanca do bem-estar social, mas sempre criou também vítimas circunstanciais que a sociedade tem a obrigação de reconhecer e proteger. No passado, cada uma das revoluções tecnológicas ficou circunscrita ora ao domínio produtivo, ora à difusão do conhecimento. Na actualidade, e pela primeira vez, a onda de mudança tecnológica está a mudar em simultâneo todos os domínios da atividade humana, o que multiplica o drama destes infoexcluídos.

As decisões de adoção tecnológica são também políticas e uma sociedade responsável tem o dever de reconhecer e mitigar os impactos negativos do progresso nas pessoas com quem partilhamos o nosso presente e que devem também formar parte do nosso futuro.

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