PS: afastar Sócrates para tentar salvar o congresso

As sucessivas declarações dos últimos dois dias, começando por Carlos César e continuando em João Galamba, abrindo caminho a uma abordagem ao caso de José Sócrates pelo próprio primeiro-ministro, não podem deixar de ter resultado de uma estratégia delineada. António Costa sentiu o perigo e o PS lançou-se para a imperiosa necessidade de reagir a este calvário de auto-flagelação, que envolveu ainda Manuel Pinho, Arons de Carvalho e até Ferro Rodrigues (sobre a ética associada às viagens dos deputados insulares). Fez bem.

José Sócrates era, há muito, um fardo para o PS.
Um ex-primeiro-ministro que, reconhecidamente, na hipótese mais benigna, vivia à conta de um amigo há vários anos; exercia a política “por vaidade”; mandara comprar de forma massiva um livro que apenas coordenou; mentiu em público sobre a origem do dinheiro que animava a sua desafogada vida e estava exposto a todas as outras suspeitas que se conhecem, não é um militante recomendável para um partido que aspire, como o PS, a merecer a confiança dos eleitores.
Sócrates será julgado pela Justiça quanto aos factos – e essa sentença virá no tempo próprio -, mas política e eticamente justificava a atitude de afastamento que o PS marcou nas últimas horas e o levaram a devolver o cartão de militante.
Atrevo-me a pensar que o momento-chave para tudo isto, associado ao escandaloso caso envolvendo Manuel Pinho, foi a declaração brutal de Arons de Carvalho: “Não acho reprovável uma pessoa [Sócrates] viver com dinheiro emprestado!”.
Aquela desastrada tentativa de defesa de Sócrates, vinda de um homem que é próximo de António Costa, deve ter feito soar as campainhas de alarme pela natural indignação pública que causou. Se o PS não fizesse algo para se afastar do desvario de amizade cometido por esse seu fundador estaria a subscrever a indigência como modo de vida na política. Que belo sinal a juntar à hipótese de ter havido um ministro (Pinho) que terá sido avençado pelo BES enquanto recebia ordenado do Estado!
E, portanto, de repente, a avisada recomendação de Ana Gomes de que o PS aproveitasse o próximo congresso (dias 25 a 27, na Batalha) para uma reflexão sobre como se deixara ser refém deste processo de José Sócrates, e de toda esta gente pouco recomendável, destacou-se como uma inevitabilidade. Mais: o PS tinha, até, de se antecipar. Caso contrário o congresso iria ser penoso: o partido a querer discutir a abertura de um ciclo político que vai até às eleições do próximo ano e a comunicação social a falar de Sócrates e Pinho durante todo o tempo!; a querer reivindicar a melhoria económica e financeira do País nesta legislatura e, provavelmente, José Sócrates a concordar com tudo isso no papel de comentador da TVI! Não era preciso ser um génio da análise política para prever que um fim-de-semana assim seria um desastre comunicacional para o PS, com efeitos negativos no eleitorado.
José Sócrates ‘recebeu’ a mensagem e foi à sua vida a solo. Já deve estar a preparar a inevitável e imprescindível chamada à comissão de inquérito proposta pelo BE ao caso de Manuel Pinho. Parece-me elementar que isso aconteça.
O que já não me parece tão elementar é acreditar que os danos para o PS estejam completamente controlados. Sócrates tinha uma família numerosa no partido e não sabemos o que isso trará ainda de projeção no trabalho de investigação em curso e na continuação do debate político que inevitavelmente a oposição irá catalisar.




Mais notícias
notícia seguinte