Projetos construídos de raiz começam a atrair investidores estrangeiros

Dois negócios de valor superior a 100 milhões de euros em menos de um ano é motivo de satisfação para a consultora CBRE que espera um 2017 ainda melhor do que 2016, ano que bateu todos os recordes

A consultora CBRE entrou em 2017 com a conclusão de alguns dos maiores negócios imobiliários realizados em Portugal nos últimos anos. Desde a venda do antigo edifício do Diário de Notícias, na avenida da Liberdade, em Lisboa ao portefólio de ativos da Tranquilidade que corresponde a 80 imóveis. Um ano que se prevê em grande para a consultora que mantém a liderança em Portugal depois de quase três décadas a operar no nosso país. Francisco Horta e Costa, Managing Diretor da CBRE Portugal, revela que se espera um aumento da atividade imobiliária para os próximos anos.

Apesar de alguma moderação sobre o desempenho do mercado para 2017, o ano começou muito bem para a CBRE. O negócio da venda do edifício do Diário de Notícias e recentemente do portefólio da Tranquilidade são exemplos disso. Era esperado? Como analisa estes grandes negócios?

O ano começou de facto bastante bem para a CBRE, talvez melhor do que estávamos à espera, sendo que além das operações do DN e da Tranquilidade, vendemos também o retail park de Albufeira. Eram negócios que já vinham a ser trabalhados por nós há bastante tempo e cujo fecho poderia ter acontecido no final do ano passado, mas acabaram por demorar mais algum tempo e só se concretizaram no inicio deste ano. O negócio do portfólio da Tranquilidade foi o segundo portefólio de valor superior a 100 milhões de euros que vendemos em menos de 12 meses, o que é o melhor reflexo da atividade do mercado português, nomeadamente em Lisboa. Estes portefólios são compostos, na sua maioria, de produto de reabilitação, tendo sido oportunidades únicas para adquirir um conjunto fabuloso de edifícios em zonas prime. Ambos foram adquiridos por investidores estrangeiros, assim como o edifício do DN.

Isso significa que os investidores estrangeiros ainda mantêm o interesse em Portugal. O que procuram concretamente?
Os investidores estrangeiros não só mantêm como penso que até aumentaram o seu interesse em Portugal. Estas operações revelam bem a dimensão e a transversalidade do interesse dos investidores em Portugal, que vai desde o setor dos escritórios ao residencial, passando pelo retail, seja para produto de rendimento, mais financeiro, seja para produto de reabilitação. Neste momento começa a haver uma procura por terrenos para desenvolvimento de projetos de raiz.

A escassez de espaços de escritórios de qualidade em Lisboa e no Porto para a procura existente, como tem sido contornada?
Tem sido contornada através da ocupação de edifícios antigos, com 20 ou 30 anos, que estavam desocupados e que sofreram algumas obras de recuperação. No entanto, mesmo estes edifícios já se encontram quase todos ocupados e é imperativo que se construam edifícios novos. Os próprios ocupantes poderão substituir-se aos promotores imobiliários, já que têm necessidades urgentes de espaço que não podem esperar.

O retail também tem estado muito dinâmico, o que motiva esta constante compra e venda de ativos comerciais em Portugal? É dos mais rentáveis e que mais atrai investidores?
Portugal possui um “parque” de centros comerciais de grande qualidade e este é um tipo de ativos que atrai investidores pela sua rentabilidade e perfil de risco. Apesar da forte descida das yields em Portugal, ainda temos rentabilidades mais atrativas do que outros países, nomeadamente a nossa vizinha Espanha.

Apesar da crescente dinâmica das consultoras, estes resultados podem espelhar o restante mercado imobiliário?
Sim, eu penso que o mercado imobiliário de uma forma geral encontra-se numa fase muito boa, quer em termos setoriais, quer em termos geográficos. Portugal está claramente no mapa dos grandes investidores estrangeiros e neste momento somos um destino de eleição para residência por parte de europeus, asiáticos e brasileiros.

Nestes grandes negócios surgem muitas críticas sobre o facto de não contribuírem para a economia portuguesa. Na sua opinião como é que as transações destes ativos têm implicação direta na economia nacional?
Estou em total desacordo com essas críticas! O investimento imobiliário é o catalisador de muitas outras atividades que gravitam à volta do imobiliário, tais como a arquitetura, engenharia, construção, etc., dando emprego a muita gente. Cada vez que há uma transação as autarquias recebem IMT, mais tarde vão receber mais IMI em virtude da valorização dos edifícios. Além disso, o Estado vai receber impostos de toda a atividade de construção e restantes serviços associados à promoção e reabilitação. De seguida, os estrangeiros que vêm viver para Portugal vão gastar dinheiro nos nossos supermercados, vão comprar carros nos nossos stands,  vão arranjar os carros  nas nossas oficinas, vão aos nossos restaurantes, etc, alimentando muitos outros negócios e pagando impostos indiretos cada vez que consomem. Já viu bem a dimensão do efeito multiplicador de toda esta atividade?

Com este início do ano fulgurante o que a CBRE espera para 2017 e para os próximo anos?
Em 2017 poderemos vir a superar o ano de 2016, que foi o melhor ano de sempre para a CBRE em quase 29 anos de presença em Portugal. Os próximos anos estarão dependentes da evolução das taxas de juro e do rumo que tiver a economia portuguesa. No entanto, penso que Portugal atravessa uma mudança estrutural e se houver crescimento económico e estabilidade política e fiscal, segurança e sol, vamos continuar a ter anos muito bons de atividade imobiliária!