Proibição de jogos em dias de eleições: Nem o PS está a favor da decisão do Governo

PSD, CDS e o próprio PS não acompanham a decisão do Governo relativamente à proibição de jogos de futebol em dia de eleições.

O Executivo socialista de António Costa quer acabar com os jogos de futebol em dia de eleições nacionais, na expectativa de que a medida venha pôr fim à elevada taxa de abstenção no país.  Contudo, da esquerda à direita, os partidos vêem a medida como pouco relevante e incapaz de contribuir para uma maior participação dos cidadãos em atos eleitorais.

Para o próximo dia 1 de outubro, data das eleições autárquicas, estão marcados quatro jogos da I Liga de futebol, caso do clássico entre Sporting e FC Porto, às 18h, mas também Marítimo-Benfica (20h15), Sporting de Braga-Estoril-Praia (16h00) e Belenenses-Vitória de Guimarães (20h30).

“Insulto à mentalidade dos portugueses”

O Partido Social Democrata (PSD) considera que a proposta do Executivo socialista de proibir jogos de futebol em dias de eleições nacionais esta é uma “manobra de diversão” e um “insulto que procura infantilizar a mentalidade dos portugueses”. Em entrevista à rádio TSF, o deputado social-democrata Luís Marques Guedes afirma que a aplicar-se esta medida teriam de se proibir também outras atividades lúdicas a favor do direito de voto.

“Aos 40 e tal anos de democracia penso que há mais do que maturidade suficiente por parte dos eleitores para organizarem a sua vida no sentido de exercerem o direito de voto, que é um direito fundamental que todos temos e não deixamos de utilizar”, afirma Luís Marques Guedes. “O que virá a seguir? Proibir cinemas, teatros, que se encerrem os museus ou os centros comerciais em dias de voto?”

Luís Marques Guedes defende que o Governo deveria governar mais e deixar-se de “infantilidades”.

“Isto não é governar. Isto é para esconder a lacuna que existe relativamente à necessidade de enfrentar os problemas reais do país”, afirma. “O resultado é sempre o mesmo, ou não governa ou governa muito pouco, e depois entretém-se com estas infantilidades que eu espero que não vão adiante”.

Incentivar a uma maior participação passa pelo voto eletrónico

O presidente do Partido Socialista (PS), Carlos César, salienta que “seria preferível que outros eventos não contribuírem para qualquer perturbação no dia do ato eleitoral”, mas que não há “um drama no facto de estarem marcados jogos de futebol”.

“Até eu, que votarei em Ponta Delgada, poderei estar num estádio em Lisboa. Em maior risco de privação cívica estão os muitos que trabalham ao domingo”, afirma Carlos César, salientando que a melhor forma de aumentar a participação cívica em atos eleitorais passa por “implementar maiores facilidades no exercício do direito de voto, como, por exemplo, o voto eletrónico”.

“Legislar especificamente sobre eventos desportivos pode ser útil mas pouco adianta à participação eleitoral”, reitera o presidente do PS.

“Abstenção do país não tem a ver com jogos de futebol”

A líder do CDS-PP, Assunção Cristas, mostrou-se a favor da proposta do Governo para criar uma legislação que proíba jogos de futebol em dias de atos eleitorais, mas aponta sérias dúvidas em relação à interferência destes eventos desportivos nos “elevados níveis de abstenção” do país.

“Se o Governo for por diante, não vejo mal nisso, mas também, com franqueza, não acredito que os elevados níveis de abstenção no nosso país tenham a ver com um pontual jogo de futebol”, afirmou Assunção Cristas. “As pessoas que querem votar têm muitas horas para o fazer e podem organizar o seu dia para votar mais cedo e depois verem o seu jogo de futebol”.

“Quando está sol, diz-se que é por causa do sol, porque as pessoas vão para a praia, quando chove diz-se que é por causa do mau tempo que as pessoas ficam em casa”, sustenta a líder centrista, dizendo no entanto que “idealmente, no dia das eleições”, quanto “menos outras atrações, melhor”.

Falta de sensatez

A coordenadora do Bloco de Esquerda (BE), Catarina Martins, acredita também que a realização de jogos de futebol em dia de eleições autárquicas não é a mais sensata e vem repetir o que aconteceu durante as legislativas de 2015, com jogos a realizarem-se em fim-de-semana de eleições.

“Esta é uma situação repetida já em 2015 [eleições legislativas]. Na altura, a posição de todos os partidos – e o Bloco de Esquerda acompanhou – é que essa não era a decisão mais recomendável, mais sensata”, afirmou Catarina Martins.





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