Possibilidade de guerra “é maior que na crise dos mísseis de Cuba”

A eventualidade de uma guerra nuclear entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos é muito real. A China, ao contrário do que pensava o Ocidente, pouco pode fazer para acabar com a crise.

KCNA KCNA/Reuters

Pela segunda vez desde que, em 1945, os Estados Unidos lançaram duas bombas atómicas no Japão, o mundo está confrontado com a forte possibilidade da deflagração de um conflito nuclear – desta vez com o epicentro na Coreia do Norte. Mas, como adiantou ao Jornal Económico o embaixador e comentador político Francisco Seixas da Costa (ver entrevista), o risco de uma escalada que resulte numa confrontação armada é bem maior que o que sucedeu em 1962, quando a União Soviética quis instalar armamento nuclear em Cuba, a escassos quilómetros do território dos Estados Unidos .

Para além de todas as diferenças da envolvente política – o mundo de 1962 e o atual são muito diferentes – Seixas da Costa salienta que o elevado grau de perigosidade do momento se deve à enorme imprevisibilidade dos dois homens em crescente oposição: Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

Sobre o primeiro, o mundo nem sequer tem a certeza da data do seu nascimento – e sabe apenas que, depois de ter estudado na Suíça, sucedeu ao pai, Kim Jong-il, que tinha sucedido ao avô, Kim Il-sung (fundador do país em 1948), mantendo o regime norte-coreano completamente fechado ao contacto com o exterior ou a qualquer abertura pró-democrática. Entretanto, o resto do bloco comunista foi consumido pelo tempo (e pelo capitalismo) e a Coreia do Norte assume-se como o último bastião da ditadura do proletariado.

O que, para Seixas da Costa, é mais um elemento a acrescentar ao barril de pólvora em que a Península da Coreia se transformou: nada indica que Kim Jong-un não queira ficar na história como o último mártir do comunismo, na expectativa de que a história o venha a absolver – como acreditava Fidel Castro sobre si próprio, ele que, precisamente, esteve diretamente envolvido na crise de 1962.

Do outro lado está Donald Trump – sobre quem alguns os seus detratores norte-americanos, mal souberam da sua nomeação como candidato à presidência, começaram a fazer apostas em relação a quantos meses passariam até o homem de negócios lançar o país numa nova guerra.

Na altura, as evidências apontavam para o Irão, mas a Coreia do Norte sobrepôs-se. E sobrepôs-se sem que Trump alguma vez tivesse ponderado seriamente nessa hipótese. Segundo Seixas da Costa, a administração norte-americana ficou verdadeiramente surpreendida quando percebeu que a China não conseguiria resolver o problema com facilidade.

Como sempre, Trump não terá estudado os dossiês: desde que a China optou por fazer evoluir a ditadura do proletariado para uma espécie de comunismo de mercado, Pequim e Pyongyang distanciaram-se cada vez mais. Kim Jong-un nunca visitou oficialmente a China (nem qualquer outro país, aliás) e já repetiu várias vezes que não submeterá o desígnio nacional da Coreia do Norte (qualquer que ele seja) à estratégia de internacionalização da China.

Um problema para a China

Este distanciamento é, aliás, o fator mais grave da crise atual, como recordou Seixas da Costa: a pouca eficácia da diplomacia chinesa nos corredores do poder de Pyongyang deixou o resto do mundo, onde se inclui a ONU, sem saber o que fazer – para além de repetir intensos apelos ao diálogo que, aparentemente, não conseguem passar para norte do paralelo 38.

O distanciamento entre os dois regimes dá-se também por outra ordem de fatores: a China não está interessada em ter às suas portas (os dois países partilham uma fronteira de mais de 1.400 quilómetros) uma potência nuclear – não só porque é um presságio de má vizinhança, mas também porque isso obriga a uma presença vigilante também ela demasiado próxima (instalada na Coreia do Sul) do poderio militar dos Estados Unidos.

Para todos os efeitos, não é a primeira vez que o Ocidente tem de lidar com ‘inimigos’ com pretensões nucleares: Seixas da Costa recordou que foi isso precisamente que sucedeu com o Irão, fazendo aliás um paralelo entre este país e a Coreia do Norte.

A vontade nuclear do Kim Jong-un dá-se, aparentemente, para que a Coreia do Norte assegure a segurança territorial e a permanência do regime, precisamente o mesmo que queriam os ayatollah. E, em termos ideológicos, volta a colocar-se a mesma questão ética: que legitimidade têm os países possuidores de armas atómicas de bloquear o acesso de qualquer outro país a esse círculo restrito?

Para Seixas da Costa, e uma vez que do lado da Coreia do Norte não há como fazer previsões, a evolução da crise está nas mãos dos Estados Unidos.

E “ao menos por uma vez”, Trump parece estar a agir com alguma parcimónia, não tanto porque isso lhe seja natural, mas porque tem a seu lado conhecedores profundos do que seriam as consequências de um confronto armado entre dois países nucleares que está obrigado a ouvir.

Não sendo de esperar que os Estados Unidos aceitem acabar com as manobras militares conjuntas com a Coreia do Sul no Mar do Japão e no Mar da China Oriental, espera-se ao menos que a administração Trump saiba moderar qualquer vontade de ser o primeiro ‘a carregar no botão vermelho’ e esteja preparado para o diálogo, até com os seus piores inimigos.

As próximas semanas serão cruciais para se perceber como acabará esta crise.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.





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