Os “factos alternativos” da política portuguesa

O ministro das Finanças mentiu? No atual mundo “pós-verdade”, a resposta depende da narrativa que preferir, ou dos factos que escolher. Ainda que a mentira seja um velho instrumento político.

Rafael Marchante/Reuters

Mário Centeno negou sempre a existência de um acordo com António Domingues quanto à dispensa da entrega das declarações ao Tribunal Constitucional. No entanto, a correspondência trocada entre o Ministério das Finanças e Domingues, assim como o desenvolvimento das negociações, apontam no sentido contrário. “O ministro das Finanças não mentiu”, garantiu o primeiro-ministro António Costa no Parlamento, a 8 de Fevereiro. E se Domingues ficou convencido de que havia um acordo, tratou-se de um “eventual erro de perceção mútuo”, justificou Centeno, a 13 de Fevereiro.

A nova era da “pós-verdade”, baseada na difusão de “factos alternativos” (conceito recentemente fundado por Kellyanne Conway, conselheira do novo presidente dos EUA, Donald Trump), entrou em vigor na cena política portuguesa? “Por força das necessidades e exigências de comunicação, os políticos atuais falam muito mais do que os antecessores. Logo, a probabilidade de mentirem é muito maior. Antes, escondiam. Apareciam muitíssimo menos. Hoje, quando não querem ou não podem mentir, para não serem apanhados, tentam controlar a agenda, desviam-se das perguntas, dos jornalistas ou da oposição. Ou desaparecem por uns dias. Foi o que fez António Costa sobre a Caixa Geral de Depósitos”, explica Eduardo Cintra Torres, sociólogo e crítico de televisão.

No mesmo sentido parece apontar a historiadora Irene Pimentel, embora abordando a questão de uma forma abstrata, sem se referir a qualquer caso específico: “Com o excesso exponencial da exposição dos políticos, a competição global dos ‘mass media’ e a irrupção das chamadas redes sociais, a verdade deixou de ser um facto. E será que alguém se interessa por isso? Os leitores dos tablóides impressos ou televisivos não querem saber se o que consumiram é verdade ou mentira, desde que os tenha entretido por alguns momentos”.

Listagem de mentiras
Há mais exemplos de mentiras, ou “factos alternativos”, no discurso político. “Não me recordo em nenhum país democrático, seguramente em Portugal, que a oposição tenha brincado com o  fogo com a dívida pública para fazer oposição ao Governo em funções, pondo em causa o interesse nacional”, declarou Costa, no mesmo debate em que assegurou que Centeno “não mentiu” em relação à CGD. Ora, Costa estava a acusar o PSD e o CDS-PP de utilizarem a dívida pública como arma de arremesso político, sublinhando que nunca o tinha feito enquanto líder da oposição. Mas basta folhear os jornais publicados nessa altura para encontrar diversas críticas de Costa à gestão da dívida pública pelo Governo de Pedro Passos Coelho.

Por seu lado, Passos Coelho também mentiu quando, em 2013, disse que “ninguém” do seu Governo “aconselhou os portugueses a emigrarem”. O mesmo se aplica a Maria Luís Albuquerque que, ao longo de 2015, nas funções de ministra das Finanças, referiu-se várias vezes à promessa de devolução da sobretaxa do IRS como um dado adquirido. Já em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa anunciou que a mandatária nacional da sua campanha eleitoral era “uma mulher de 29 anos”, mas na verdade, oficialmente, era um homem de 64 anos. A caminho do poder, em 2005, José Sócrates prometeu referendar o Tratado Constitucional Europeu, algo que não cumpriu. Em 2013, Paulo Portas apresentou um pedido de demissão “que é irrevogável” e afinal foi revogado. Entre muitos outros exemplos.

Razões e segredos de Estado
Os políticos contemporâneos recorrem mais sistematicamente à mentira, ou sempre foi um instrumento comum da atividade política? “Recorrem à mentira, à inverdade, à omissão e ao erro voluntário. Mas isso sempre aconteceu. E o ‘tudo transparente’ em política é uma impossibilidade, por razões de segurança, de diplomacia ou humanas”, responde Pimentel.

“Imaginemos um mundo onde todos, a todas as horas, disséssemos a nossa verdade aos outros. Seria rapidamente um mundo de guerra de todos contra todos. Mas um mundo em que ‘tudo é escondido’ também não é democrático. Nós delegamos o poder em democracia, mas temos de fiscalizar”, ressalva a historiadora.

É justificável que um político minta em determinadas circunstâncias? “Os políticos devem sempre falar verdade,” frisa Cintra Torres. “Quanto à política, é compreensível que, por razões chamadas ‘de Estado’, se ocultem informações sobre negociações, planos militares, etc. Essa ocultação deve ser avaliada segundo as regras da ética. Para existir, um ‘segredo de Estado’ deve ser mais favorável aos cidadãos do que a sua divulgação”, argumenta o sociólogo.

Maior tolerância cultural
De qualquer modo, “em Portugal há uma tolerância muito maior relativamente à mentira do que em países com outra cultura, como os nórdicos e os anglo-saxónicos”, distingue. Por que razão? “Os eleitores podem não estar informados sobre verdades e mentiras de políticos. Podem ter crenças, como a sua afinidade com partidos que se sobrepõem ao conhecimento de mentiras, como acontece com os adeptos de clubes. Ou podem achar que há vantagens que se sobrepõem a malfeitorias de políticos. Não tivemos nós autarcas corruptos e Sócrates reeleitos?”



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