Holanda: O país da liberdade

Judeus expulsos de Portugal por D. Manuel I rumaram para Amsterdão. Holandeses estavam mais interessados nas capacidades de cada cidadão do que nos deuses em que acreditavam.

Geert Wilders e D. Manuel I de Portugal têm algo em comum: o ódio ao Islão. O monarca português expulsou os mouros e os judeus em 1496. Os muçulmanos foram para o Islão, enquanto os judeus rumaram ao país da liberdade: a Holanda.

Quando D. Manuel I quis unificar os estados ibéricos, combinou um casamento com a filha dos Reis Católicos, Isabel de Aragão – tendo para isso feito uma das coisas mais tolas da história do país: aceitou expulsar os mouros e os judeus do território nacional. As consequências (económicas e outras) desta desastrada decisão nunca serão verdadeiramente conhecidas, mas os historiadores convergem na evidência de que tudo teria sido bem diferente, para melhor, se semelhante coisa não tivesse acontecido.

À época, os judeus tinham poucas perspetivas de aceitação na Europa – algo que só desapareceu, talvez, em 1945 – e muito poucos pontos de refúgio. A Holanda e, estranhamente, a cidade de Roma (dominada pelo Papa Alexandre VI, um Borgia, o mesmo que assinou o Tratado de Tordesilhas e conferiu aos reis espanhóis a designação de Reis Católicos) eram os mais fiáveis.

A presença da Holanda na lista dos locais de refúgio dava-se porque os holandeses estavam mais interessados em saber das capacidades de cada cidadão para se auto-sustentar do que propriamente nos deuses em que acreditavam. Foi esse espaço de liberdade – e não qualquer ética protestante, que ainda nem existia – que gerou os primeiros sintomas do capitalismo (comercial) e marcou para sempre as terras mais baixas da Europa.
Esta liberdade inscreveu-se no ADN do país e não foi por acaso que, muitos séculos depois, num espaço europeu tremendamente conservador, Amesterdão – depois de Paris entre as duas guerras, mas também depois de Paris de Maio de 68 – era uma espécie de oásis no meio das nuvens negras. Para ali convergiram ao longo de décadas muitos dos que, especialmente jovens, procuravam um espaço sociológico menos marcado pelo conservadorismo democrata-cristão ou pela tendência para não ‘levantar ondas’ da social-democracia.

É certo que Amesterdão não era toda a Holanda e que a sua vizinhança não era das mais queridas por muitas das cidades que lhe ficavam próximas (algumas já fora da Holanda), mas a verdade é que era e ainda é um lugar diferente, à parte. Fora da Holanda, a perceção que corre é a de que Amesterdão é a mais cosmopolita, a mais artística, a mais nobre e a mais livre das cidades da Europa. Aliás, é a mesma perceção que leva os europeus, ou parte deles, a considerar que uma vitória de Geert Wilders é o primeiro passo para acabar com tudo isso.



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