Na proteção civil e incêndios ninguém se entende. Demissão nas chefias, limpezas por fazer, meios aéreos a menos de metade e uma generalizada sensação de impotência e impreparação do poder político.

Enquanto aguardamos que o governo Sócrates venha a ser acusado, todo ele, de associação criminosa, tal o ritmo com que todas as semanas descobrimos novos ministros e secretários de Estado envolvidos em alegados actos de corrupção, o Governo actual navega à bolina.

Raras são as áreas da governação com rumo certo. Mas há uma área que não consegue sair da primeira página dos jornais. Na protecção civil e incêndios ninguém se entende. Demissão nas chefias, limpezas por fazer, meios aéreos a menos de metade, contratos inexplicados e uma generalizada sensação de impotência e impreparação do poder político. A leitura das reportagens dos jornais e as entrevistas aos “especialistas” revelam sobretudo muito nervosismo, de mistura com a tradicional boa vontade dos que não mandam nada e apenas obedecem e portanto lá vão limpando os terrenos.

Mas, mais grave do que isso, é a quase total opacidade em que todo o processo se arrasta. Em Abril, o ministro garantiu que os meios aéreos estavam adjudicados. Hoje sabe-se que é mentira e ainda que acabou sentado à mesa com as empresas a quem tinha acusado de cartelização. Ou seja, empresas “seriíssimas” que se conluiaram para fazer subir os preços de forma artificial.

Pior ainda. Na negociação que o Governo encetou, tarde e a más horas, as empresas encostaram o executivo à parede e vai daí conseguiram baixar para ¼ dos valores iniciais a multa por dia de inoperacionalidade dos helicópteros, que era de 20 mil euros e terá passado para quatro a cinco mil. E também conseguiram que o Governo aceitasse aeronaves de inferior  categoria técnica da que exigia no concurso de Dezembro. É claro que isto tudo não é só incompetência a negociar e a celebrar contratos. Tem a não despicienda consequência de sair mais caro aos cofres do Estado. A todos nós, portanto.

Acresce a este cenário deprimente a extraordinária revelação de que haviam desaparecido documentos da actuação dos operacionais nos incêndios do ano passado. Também aqui o Governo meteu os pés pelas mãos e alegou “segredo de justiça” para nada revelar. Alguém chamou à atenção de que o dito segredo não tinha qualquer aplicação aqui. E a presidente da Associação das Vítimas de Pedrógão, Nadia Piazza, não deixou morrer o assunto e perguntou se se abriram “processos disciplinares e averiguações para perceber quem destruiu provas do combate ao incêndio”. Até hoje sem resposta.

Perante todo este desconchavo, ainda mais grave quanto é certo que o Governo teve um ano para preparar tudo em condições, o que mais se ouve por aí são preces a São Pedro. No fundo, o verdadeiro ministro é ele.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.




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