Nuno Severiano Teixeira: “Portugal tem gerido bem a sua integração europeia”

O ex-ministro e professor catedrático Nuno Severiano Texeira coordenou e participou no livro que conta a História Militar de Portugal nos últimos mil anos. Nesta entrevista fala sobre o atual nível militar de Portugal, a NATO e a integração europeia.

Cristina Bernardo

Ao longo dos cerca de mil anos de História que investigou, em algum momento Portugal se destacou como a nação militarmente mais poderosa do mundo?

Sem dúvida. No período da época moderna, que corresponde ao grande período da expansão do império português, nessa altura Portugal era indiscutivelmente uma das duas grandes potências da época. E portanto, durante esse período da expansão portuguesa e da criação do império marítimo, sem dúvida que Portugal e a Espanha eram as duas grandes potências. De tal modo que dividiram o mundo ao meio, entre si, em Tordesilhas.

Nessa época, a tecnologia militar de Portugal era a mais avançada do mundo?

Sim, sobretudo a tecnologia naval. As inovações ao nível da náutica e da navegação. O professor Francisco Contente Domingues traduz muito bem essa vertente no livro.

Como é que classifica o atual nível militar de Portugal? Se não estivesse integrado na NATO, o que valeria por si próprio?

Desde a sua entrada na NATO, em 1944, Portugal tem alinhado o seu posicionamento militar de acordo com os padrões da Aliança. E também de acordo com a capacidade que o país tem. Portanto, quer do ponto de vista do treino, quer da tecnologia militar, quer da doutrina, as Forças Armadas portuguesas, desde a sua entrada na NATO, têm acompanhado aquilo que é o “standard” da Aliança. E só num quadro de segurança cooperativa é que se pode perceber o contributo que o país tem dado para as operações de paz da NATO, mas também da União Europeia e das Nações Unidas que são um elemento fundamental de estabilidade da situação internacional.

Nesse sentido, a eventual saída da NATO poderia ser danosa para Portugal?

Eu penso que isso nem sequer se coloca.

Dois partidos que suportam o atual Governo defendem essa saída…

Nunca os ouvi dizer isso diretamente.

Ao contar a História militar, este livro traça uma contextualização política e social. Outra componente importante é a estratégia. Além das “Linhas de Torres Vedras” ou da “Batalha de Aljubarrota”, mais conhecidos, que outro momento estratégico é que importa destacar? Talvez a estratégia naval de Afonso de Albuquerque no Oceano Índico?

Essa destacaria indiscutivelmente, a de Afonso de Albuquerque. Como uma estratégia fundamental para a construção de um império de base naval. Sem dúvida nenhuma, um momento-chave. E é uma estratégia global, política, de afirmação do império, com base numa estratégia naval. Esse é um momento importante. Refiro-me a momentos em que a posição portuguesa se destaca no contexto internacional. Se olharmos para a contemporaneidade, em busca de contributos de Portugal para um pensamento estratégico que ultrapassa a dimensão internacional e atinge a dimensão global, talvez seja de realçar a doutrina das guerras de contra-guerrilha na Guerra Colonial. Há um pensamento estratégico que tem base naquilo que era a contra-guerrilha no Vietname e na Argélia, mas há um contributo português para essa estratégia de contra-guerrilha que vai um pouco além daquilo que se praticou no Vietname e na Argélia. Esse também é um ponto importante.

Essa estratégia figura nos manuais da especialidade?

Sim. Repare que isto não tem conotação nenhuma de natureza política. É uma questão técnica, e estratégica, no sentido da utilização do pensamento estratégico em determinado contexto de guerra de guerrilha.

E quando observa operações de contra-guerrilha contemporâneas, distingue algum elemento de origem portuguesa?

Há um livro muito interessante, do coronel Lemos Pires, que faz uma comparação entre três grandes estrategas e que vai nesse sentido do que está a dizer. Compara o Wellington, o Spínola e o Petraeus. São três fases diferentes em que justamente esse elemento está presente.

Ao longo da História portuguesa, identifica uma linha estratégica contínua de tentar fazer muito com pouco? Isto é, exponenciar a capacidade do país, a projeção de poder, apesar da escassez de recursos, de população…

A otimização dos recursos é um elemento absolutamente fundamental. Se nós olharmos para a História, o facto de Portugal ser um país, estamos a falar a partir do século XV, que é quatro vezes mais pequeno do que Espanha, que tem quatro vezes menos território, quatro vezes menos população, o que significa quatro vezes menos capacidade económica e militar… Perante isto, qual é a estratégia de Portugal? É sair do quadro da Península. E portanto, quem tem menor capacidade, tem que procurar estratégias alternativas. A estratégia alternativa de Portugal foi construir o império fora da Península Ibérica. A gestão dos recursos é uma questão importante. E o problema é procurar alternativa para isso. Portugal primeiro constrói o império da Índia, a seguir o do Brasil e a depois finalmente o império africano até á descolonização. E a partir daí é a opção europeia, que tem sido a alternativa portuguesa.

Mas atualmente, com a integração europeia, não estamos a descurar essa tradição estratégica?

Penso que um país com a dimensão de Portugal tem gerido bem a sua integração europeia. Portugal tem tradicionalmente uma ligação atlântica, e essa ligação atlântica vem justamente desta ideia inicial de procurar uma compensação marítima a essa pressão continental que tem, sobretudo por parte da Espanha. E portanto construiu historicamente um conjunto de relações, que hoje são relações pós-coloniais, fora da Europa. A gestão que Portugal tem feito da sua integração europeia tem sido relativamente inteligente, que é procurar rentabilizar a posição que tem na Europa com as suas relações no quadro do Atlântico e no quadro das relações pós-coloniais. Portugal vale mais na relação que tem com os EUA, na relação com o Brasil ou Angola, enquanto membro da UE do que enquanto país isolado. E o contrário também é verdade. Portugal por ter relações tradicionais, históricas, privilegiadas com alguns desses países de expressão portuguesa, também tem maior capacidade, maior margem negocial, maior peso na Europa. Por exemplo, a estratégia da relação da UE com África foi sempre feita nas presidências portuguesas. A estratégia da relação da UE com o Brasil foi conseguida e promovida nas presidências portuguesas. Eu acho que Portugal não deve ser só atlântico, só europeu… É desta múltipla pertença que pode rentabilizar a sua posição. E isso é uma estratégia inteligente, para quem tem pequena dimensão, população reduzida.





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