Abrandamento do crédito pode indicar uma recuperação económica mais lenta que esperada.

Uma das coisas que tenho aprendido a fazer enquanto analista de ações (e que considero ser valioso nesta função) é ser moderadamente do contra. Se a multidão está otimista, procuro motivos para não o estar, se a multidão está pessimista, procuro motivos para os animar. A maior parte das flutuações de preço nos mercados devem-se a mudanças de expetativas e não de factos. Saber filtrar essas alterações de expetativas é provavelmente a melhor habilidade que podemos ter enquanto investidores. Umas fazem sentido, outras nem tanto… No último trimestre temos assistido a um crescimento gradual do otimismo em relação ao desempenho económico dos principais blocos globais.

Nos EUA, a eleição de Trump fez acordar o espírito animalesco dos norte-americanos (os animal spirits em inglês, mas em português é claramente mais engraçado). Para quem não está familiarizado com a teoria à volta dos animal spirits, compare os seguintes cenários: um em que espera que o seu salário suba 50% ao longo dos próximos três anos; e outro em que espera que se mantenha inalterado nesse período. Agora imagine as decisões de consumo que iria tomar nos dois cenários. Carro e casa nova no primeiro, lancheira para o almoço no segundo, não? Se sim, não se preocupe, faz sentido que assim seja e é algo do género que se estará a passar com os norte-americanos.

Na Europa, a subida da inflação, a recuperação da atividade industrial, mais o alívio de alguns riscos políticos e do setor financeiro têm sido os principais motivos de algum otimismo. A China, de onde efetivamente tem surgido algum nervosismo devido aos fluxos de capital para fora do país, recentemente também deu sinais positivos, vindos do setor industrial e da capacidade que o banco central tem tido para gerir a fuga de capital.
Seguindo a regra de investimento que delineei acima, se estamos no meio de uma onda de otimismo nos mercados financeiros globais, é altura para procurar motivos para não o ser.

Esse motivo vem dos indicadores de concessão de crédito. O ritmo de concessões de crédito nas três regiões abrandou significativamente no primeiro trimestre de 2017, o que nos sinaliza que a recuperação económica pode não ter tanta pujança quanto se espera. O crédito é o principal responsável pelos ciclos económicos de curto-prazo, sendo pouco provável que o crescimento económico acelere se a concessão de crédito está a abrandar. Não quero com isto dizer que a economia vai entrar em recessão, não há necessidade para dramas… Simplesmente chamo a atenção para um indicador económico importante que sinaliza que a recuperação económica pode não vir com tanta força quanto alguns gostavam.

Notícia publicada na edição impressa do Jornal Económico de 7 de abril



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