Macron quer ter uma palavra a dizer na crise israelo-palestiniana

O presidente francês, que recebeu Benjamin Nuthanyahu em Paris, falou abertamente do governo de Vichy – um tema quase tabu para muitos franceses – e declarou que condena a colonização israelita do território palestiniano.

Charles Platiau/REUTERS

O seu antecessor, François Hollande, já o tinha tentado com assinalável insucesso, mas Emmanuel Macron quer fazer a França regressar à mesa das negociações entre Israel e a Palestina – um problema que é uma espécie de mãe de todos os problemas no Médio Oriente. O presidente francês defendeu a necessidade de reatar as negociações israelo-palestinianas com vista a uma solução para a criação de dois estados que consigam viver lado a lado sem estarem em constante escaramuça.

Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, estava em França este fim-de-semana para participar nas cerimónias do aniversário da detenção e deportação de mais de 13 mil judeus franceses no velódromo d’Hiv, em Paris, em 1942. E Macron não perdeu tempo: falou abertamente do problema entre Israel e a Palestina, falou da existência de dois estados e concordou que a solução do conflito que dura há décadas pode ser uma peça importante para o ‘desanuviamento’ do terrorismo na Europa.

Recorde-se que, já bem perto do fim do seu mandato, o anterior presidente da República francês, François Hollande, pretendeu organizar em Paris uma cimeira que pudesse contribuir para a solução do problema israelo-palestiniano. Chegou mesmo a mandar a Israel o seu ministro dos Negócios Estrangeiros – com a incumbência de convencer Nethanyahu de que a ideia de Hollande era uma boa ideia. Mas ficou a falar sozinho: a conferência foi ‘despromovida’ pelo primeiro-ministro israelita e a ideia não passou de um fracasso.

Mas Macron quis ir um pouco mais além relativamente à questão judia. A França é historicamente um país onde o antissemitismo teve uma forte presença – e, durante o governo de Vichy o Estado francês colaborou ativamente com os nazis alemães na perseguição aos judeus. É uma página da história de França que, tantas décadas depois, continua a produzir algumas clivagens. Para todos os efeitos, a questão – ou as duas questões, a do governo de Vichy e a da perseguição aos judeus – é ainda uma espécie de tema proibido, de que os franceses não gostam de falar.

Macron passou por cima de tudo isso, e referiu-se mesmo ao governo de Vichy. “Rejeito o tom reconciliatório daqueles que hoje pretendem que o regime de Vichy não era a França”, afirmou Macron, para espanto de muitos.

Para os analistas, o presidente francês quis, por outro lado, produzir uma intervenção que pudesse de algum modo soar de forma agradável para a esquerda. É que, à margem da cerimónia, e segundo relata a imprensa francesa, o presidente mostrou-se menos conciliador com Nethanyahu, ao condenar a colonização israelita dos territórios palestinianos.

Macron prometeu ainda servir de ‘fiscal’ sobre a aplicação do acordo nuclear iraniano, uma das principais preocupações do governo israelita e, afinal, o ‘motor’ que move atualmente toda a região do Médio Oriente. Não só no que tem a ver com Israel, mas até no que concerne à crise aberta entre a Arábia Saudita e os seus aliados e o Qatar.



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