As eleições em França foram favoráveis para a Europa, mas podem pressionar o Banco Central Europeu a repensar a política monetária.

No domingo aconteceu a segunda volta das eleições legislativas francesas, onde já se esperava amplamente que Emmanuel Macron confirmasse o favoritismo que lhe tinha sido atribuído.

As eleições francesas eram apontadas como um dos maiores riscos de 2017, que a partir de domingo deixou de existir. O euro e a União Europeia ultrapassam, assim, mais um pequeno pico de risco existencial. As consequências económicas e institucionais deste resultado são indiscutivelmente positivas, mas existe um mercado financeiro que pode ressentir-se nos próximos meses.

Os mercados financeiros têm tendência para antecipar o desfecho dos eventos com alguma assertividade, o que parece ter acontecido no caso das eleições francesas, mas o mesmo não acontece com as empresas. Estas são mais lentas a tomar decisões e tendem a fazê-lo só depois dos factos terem sido apurados. Isto significa que é provável que vejamos um crescimento mais acentuado do investimento e do emprego em França daqui para a frente.

O ambiente político do país e a possibilidade da eleição de Marine Le Pen levou a um adiamento de decisões de investimento e contratações, que podem agora ser retomadas. A economia francesa tem sido uma das que mais tem desiludido ao longo dos últimos anos, mantendo-se com níveis de desemprego altos e sendo das que mais tardou a recuperar em termos de investimento, mas isso pode rapidamente mudar com a mudança de governo. Se por um lado tem sido das que mais desiludiu, por outro é das que tem mais margem para recuperar.

Estas são boas notícias de um modo geral, mas se a economia europeia está a acelerar, a atual política monetária ultra expansionista deixa de fazer sentido. Passa, num espaço curto de tempo, de ser benéfica do ponto de vista económico, a potencialmente nociva.

O trabalho do banqueiro central acaba por não ser muito diferente do de um equilibrista. De um lado está a inflação, do outro os estímulos monetários. No espetáculo de equilibrismo, a parte mais aplaudida é quando o artista quase cai, inclinando-se acentuadamente para um dos lados e deixando o público de coração nas mãos, mas depois recupera agilmente o equilíbrio de forma sublime. No espetáculo de equilibrismo, este movimento artístico acontece numa fração de segundo. No mundo dos bancos centrais, dura alguns anos.

O nosso artista, o Banco Central Europeu, quase caiu algures no pico da crise europeia, quando se questionava com seriedade a existência do euro e a manutenção de alguns países neste. Inclinou-se de forma majestosa ao avançar com estímulos monetários agressivos, controversos e não testados.

O público começou recentemente a aplaudir com mais intensidade, mas atenção que o movimento artístico ainda vai a meio, o artista ainda está inclinado… A eleição de Macron vai provavelmente forçá-lo a recuperar uma postura mais equilibrada e isso terá impacto no mercado de obrigações europeias.

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