Leonel Vieira: “A ‘pancada’ da crise foi boa porque nos fez ver outro horizonte”

Leonel Vieira, realizador e produtor, corre por gosto e trata o cinema por ‘tu’. Defende a “lusofonia do audiovisual” e desvaloriza a relação com a crítica. Transformou a crise numa oportunidade e encara o futuro com grande otimismo.

Nasceu e cresceu em Miranda do Douro. Aos 15 anos descobriu que queria ser realizador. Como surge essa ‘certeza’?
Surge num período em que tive um problema de saúde e estive hospitalizado em Coimbra. Mas isto é uma questão sobre a qual não gosto de falar. Não gosto de choradinhos, mas posso dizer que passei uns meses internado e que tive mais tempo para estar sozinho, coisa que nessa idade poucas vezes temos. Felizmente, tinha um grande grupo de amigos e havia uma ligação muito forte entre nós. Fui uma criança muito apadrinhada pela amizade e por um grande grupo de amigos que mantenho até hoje. O meu diretor aqui na empresa é o meu melhor amigo de infância… já lá vão quarenta e tal anos.

Os seus pais levavam-lhe coisas para ler? O quê concretamente?
Pedia aos meus pais para me trazerem revistas, portuguesas e espanholas, que tinham uma página dedicada ao cinema, onde falavam da rodagem ou da estreia do filme tal… A revista em si não me interessava para nada, só queria saber daquela página. Recortava-a, lia-a e relia-a uma série de vezes.

Estávamos a falar do seu desejo de ser realizador…
Lembro-me que foi uma epifania. Eu desenhava desde os seis, sete anos de idade e havia uma coisa que eu adorava: quando me tiravam das aulas e me levavam para uma sala à parte para desenhar e fazer painéis para usarmos em exposições comemorativas como o Natal, a Páscoa, o Carnaval, a instauração da República e essas coisas. Passava lá uma a duas semanas e os meus colegas ficavam muito irritados, porque aquilo fugia às disciplinas convencionais, ao português, matemática… Esse lado fazia de mim o artista do grupo e da família.

Uma vez disse que se sentia um “ovni”…
Todos os anos tínhamos professores novos. Vinham do Porto, depois não gostavam da deslocação e eram substituídos por outros. E não faltava a pergunta da praxe: “o que queres ser quando fores grande?”. E não esperavam que numa cidade do interior – que é uma das mais bonitas do país, e não o digo por ser de lá, é uma constatação – houvesse miúdos que fugissem à regra, às profissões ‘normais’. Eu e um dos meus melhores amigos, que agora vive em Madrid e é piloto da NetJet, dizia “piloto” e eu “realizador”. Tinha muita graça porque, além de amigos, éramos colegas de carteira por causa da história da ordem alfabética: Jorge Cardoso, Leonel Vieira. Ainda hoje somos grandes amigos. Ficavam muito surpreendidos e diziam que era uma profissão elitista e difícil num país que faz tão poucos filmes… Mas aquilo não foi impeditivo de coisa nenhuma.

Lembra-se do primeiro filme que o marcou verdadeiramente?
Em minha casa houve sempre televisão, portanto os primeiros filmes que vi foi no pequeno ecrã. O cinema veio mais tarde, até porque nas pequenas cidades só havia o chamado cinema intermitente, como a sala dos bombeiros. Mas, em finais dos anos 70, lembro-me de ter visto um filme passado algures num país árabe, com dunas, camelos, o exército britânico colonial… Até hoje não sei qual é. O que me ficou foi o fascínio do grande ecrã, a grandiosidade, o som da sala de cinema, os fotogramas a palpitar na projeção. Parecia que palpitavam porque a imagem não era estável, os projetores de 35mm não tinham uma janela de fixação tão boa. Na época, as janelas de arrasto dos projetores não eram tão estáveis. Hoje sei mais disso do que sabia na altura, claro! [risos]

Com que idade foi estudar para o Porto?
Foi no 10º ano e fui estudar para a área E: design e artes plásticas. Estudámos todas as técnicas de pintura. Foi um dos primeiros cursos de design que surgiu em Portugal. Começavam a dar-se os primeiros passos na área do design, nascia como nova disciplina de desenho. Eu desenhava, mas sabia que não queria fazer profissão do desenho e da pintura.

Deu-lhe bases para novos voos?
Claro que deu. Desde a história da arte, à estética, à teoria da comunicação, mas acima de tudo – sei hoje – foram as disciplinas que eu achava uma chatice estudar, como história da arte, que me deram bagagem. E uma das coisas que mais me influencia no meu trabalho é o que aprendi com o desenho e a pintura: o equilíbrio, a composição e o enquadramento.

Mais tarde, quando foi estudar cinema para Madrid, um professor seu, Julio Madurga, terá dito que tem “um instinto natural para enquadrar”.
Mas isso tem uma história por trás. Como era uma escola de cinema a sério havia uma sala de projeção. Dois ou três meses depois de estar no primeiro ano, fizemos uma série de curtas-metragens em que nos deixaram gastar película. Em Portugal isso só acontecia no último ano do curso e era feito um filme em conjunto. Lá, podíamos experimentar película – cada um dos alunos! Estávamos a ver esses filmes e o tal professor perguntou ‘quem fez este? Quem estava a operar a câmara?’. Pensei que ia levar na cabeça, mas ele perguntou: ‘como é que aprendeste a enquadrar assim?’. ‘Isto está muito bem enquadrado. Fazer isto, com esta objetiva, desta forma, a esta distância é muito difícil. Já trabalhaste? Já fizeste filmes?’ Não. ‘Onde é que estudaste?’ Numa escola de artes, estudei todas as técnicas de pintura… ‘Então é isso’, disse ele.

A escola deu-lhe traquejo?
Sim. E lembro-me da disciplina de design básico – modelo vivo. Tínhamos de desenhar uma mulher nua. O mais engraçado é que era sempre uma mulher, não tínhamos um modelo ‘homem’. [risos] Além de ser divertido – porque era uma mulher nua – também nos perguntávamos porque é que tínhamos de passar horas e horas a desenhar a mesma coisa. Era absurdo, mas depois percebi que é assim que se educa a mão. A primeira coisa que fazíamos durante meses era educar a visão para ter noção de medida. Para encontrar as proporções. Só a partir daí é que se pode recriar. Primeiro copia-se para depois chegar à essência da educação visual: quanto mais perfeita a noção de medida, mais depressa se pode passar à segunda fase, que é a de aplicar a perspetiva. Quando se tem isso educado, desenha-se na perfeição. Mas quem nasce com instinto para desenhar tem a vida mais facilitada.

O domínio da técnica fez de si uma pessoa mais disciplinada, metódica?
Quem não me conhece bem acha que sou workaholic, mas quem me conhece de perto sabe que sou obcessivamente dedicado ao que faço. E também sabem que sou muito preguiçoso. Acho que a maior parte das pessoas trabalha mais do que eu. Para mim é uma questão de disciplina, mais que qualquer outra coisa. Por isso, sim, tenho disciplina. E adoro pensar. O que mais gosto de fazer é pensar. Se for no combóio, no carro ou no avião gosto de pensar. De manhã, gosto imenso de ficar umas duas horas a pensar. Não ter de sair logo a correr para o trabalho…

Deve ter uma excelente memória, não apenas fotográfica.
Nem por isso. Quando me pedem para contar alguma história ou peripécia engraçada quando estou a rodar um filme, não me sai nada. Trato isso como trato a minha vivência. Nunca tirei muitas fotografias, porque gosto da memória emocional. Assim como não memorizo muito os filmes.

A falta de memória é uma defesa ou uma desculpa?
É uma deficiência inerente. Todos nós somos seres finitos e as nossas qualidades também o são. É bom percebermos isso, que há limites. Digamos que há coisas para as quais tenho uma excelente memória e outras em que mais parece que tenho uma memória do tamanho de uma formiga. Tento usá-la da melhor maneira e há vezes em que, se me transportar para um determinado espaço e situação, até consigo lembrar-me de peripécias, mas não as guardo. Como a história do crocodilo na Amazónia, lá está, já não me lembro dos pormenores, mas houve uma história com um crocodilo…

Falou na Amazónia e num crocodilo… Há alguns anos que o Brasil está no seu radar: “o que é que o Brasil tem”?
A minha relação com o Brasil começou em 1999, quando fui lá para fazer “A Selva”. Desde o início que a relação é muito positiva. Porquê? Porque nesse ano ganhei o Festival do Gramado com o meu primeiro filme (“A Sombra dos Abutres”, 1998), logo no início da minha carreira, e porque fui fazer o filme mais caro que se podia dar a um realizador brasileiro ou português no Brasil (“A Selva”, 2002).  Ou seja, tenho dois grandes momentos de felicidade com o Brasil. O nosso estado de espírito conta muito na forma como vemos as coisas. Comecei cedo. Aliás, quando vou a alguma escola de cinema falar há sempre alguém que diz: “que engraçado, começaste a filmar com 25 anos”. Sim, assinei o meu primeiro contrato de realização com 24 anos. Realizar uma longa-metragem é o sonho de qualquer aluno de cinema, mas há o outro lado. O processo d’ “A Sombra” foi muito, muito difícil. Valeu a pena, mas foi um parto muito difícil.

Refere-se ao financiamento?
Sim, ao processo físico, ao financiamento. Foi aí que eu percebi como o dinheiro fazia sofrer muito nesta profissão, que não era só como eu vivia, de entusiasmo e vontade de fazer filmes… isso só não chegava. Então, deu-me para escrever. Um dia sentei-me e escrevi um guião. Tenho uma licenciatura em Direção de Cinema, mas ganhei uma bolsa do American Film Institute para tirar uma licenciatura em guionismo – com o meu primeiro guião! Depois não aceitei porque consegui logo o financiamento [para o primeiro filme].

Recusou porquê?
Na altura, a Zita Seabra [presidente do IPACA, atual ICA] chamou-me e disse: “Gostamos muito do teu projeto, mas tens a bolsa de estudos. Em que é que ficamos? Fazes o filme ou vais um ano para os Estados Unidos estudar guionismo?” A bolsa de estudos era um ‘bónus’. Só fiz o sacrifício de estar 6 ou 7 meses a escrever um guião porque queria fazer um filme, não era para estudar mais guionismo! É um trabalho altamente solitário, como a pintura. Gosto muito mais de trabalho de equipa, pensamento coletivo, dialética. Gosto quando as ideias são jogadas num tabuleiro. Acho muito mais divertido. E a vida tem de ser divertida!

O sacrifício e o divertimento são conciliáveis?
Tem a ver com o que queremos da vida [risos]. Não acredito numa vida feita de sacrifício, mas por vezes tem de haver essa componente para saberes se estás disponível para fazer aquilo que realmente queres fazer. O Michael Caine tem uma tirada que eu acho fantástica sobre as pessoas que dizem ‘um dia, estive quase’ – “Detesto essa frase. Isso do ‘quase’ não existe. Há os que ficaram e os que não ficaram.” É um fio ténue, mas faz a diferença. Há quem faça isto e aquilo, quem tente superar-se e esteve quase lá, mas não conseguiu. Não resistiu, não aguentou o ‘sacrifício’, ficou pelo caminho… O “estar quase” não existe, ou pertences ou não pertences a esta profissão. Não serve para apaziguar os nossos fantasmas, o que não se fez na vida.

O reconhecimento é importante?
O Brasil deu-me esse lado positivo. Tinha saído há uns meses de uma escola de cinema com um sonho. Comecei a fazer um filme um ano depois de sair da escola. Dois ou três anos depois estava a viajar pelo mundo com esse filme. Estive em 70 festivais, ganhei os prémios todos em Portugal e o filme ainda estreou. O reconhecimento dos outros é algo que todos nós procuramos. É intrínseco ao ser humano, ou então tens alguma deformação mental. Nós precisamos do reconhecimento dos outros. Depois podemos ter comportamentos diferentes, recalcamentos, mas na nossa essência somos seres gregários, precisamos que os outros nos sorriam. O sorriso é o primeiro passo simbólico da aprovação.

É sabido que tem uma relação difícil com os críticos de cinema, que é persona non grata no meio.
Cada vez se deve dar menos importância a essa questão e vou dizer porquê. Todos sabem o que eu penso. Cria muita celeuma e animosidades estranhas sempre que esse assunto vem à baila. Não mudei de opinião. Nos momentos certos, digo sempre o que tenho a dizer. Mas também não quero dar-lhes demasiada importância, pois considero que a verdade não é do domínio de dois ou três. Depois, considero que a minha vida é fazer filmes para um grande grupo e não para duas ou três pessoas. Respeito-os como seres humanos, não respeito a postura deles porque não concordo. Mas atenção, não impeço ninguém de escrever sobre os filmes que bem entendem, mesmo se muitas vezes discordo do que escrevem. Eles têm o direito de escrever o que pensam e eu tenho o direito de discordar!

São perspetivas incompatíveis?
Há uma coisa que tenho de dizer. Nada, na sua essência, é fútil. As coisas têm sempre algo de importante. Se olharmos com atenção e alguma generosidade, temos de reconhecer que os críticos também têm o seu quê de interessante. É o que acontece com as leis em Portugal. O problema não é legislar, é regulamentar e depois fazer cumprir, fiscalizar. Há países onde isso é uma desgraça e faz com que, por vezes, sejam menos democráticos. Se não regulamentarmos – é uma das coisas que me põe doente e o Brasil ainda é pior – e zelarmos pelo bom cumprimento da coisa, não vale nada. Esta é a parábola sobre a crítica. Estudei cinema com muita gente, tive professores que também eram críticos, tive discussões interessantíssimas, concordámos em muitas coisas, noutras não, mas não pode ser a verdade absoluta nem a razão única e condicionante para o futuro de um filme. E como o nosso país ainda é um bebé e precisa de melhorar em muitos aspetos, esse também é um deles. Mas digo o mesmo do nosso cinema, daquele que eu faço: é um percurso. Não podemos fazê-lo da mesma forma que os países que exercitam o cinema milhares de vezes; nós fazemo-lo dezenas de vezes, apenas. O cinema precisa de caminhar, de ser exercitado. Nós, como temos pouco dinheiro, exercitámos pouco, aprendemos pouco.

Foi por isso que criou uma produtora? Para poder escolher e ter a última palavra sobre os projetos em que está envolvido, para ‘exercitar’ mais o cinema?
Sou um temperamental! Há quem diga que tenho muito de racional, não sei… O que sei é que tomo muitas decisões por impulso, por temperamento. A produtora não nasceu de uma estratégia, mas sim de um momento. Saturei-me do que estava a fazer e queria ter liberdade sobre as decisões relativas a um projeto.

Um projeto em concreto?
Sim. As pessoas que me conhecem sabem que quando quero fazer uma coisa, ninguém se põe à frente. Sou muito disperso, mas também sou muito determinado. Quando vejo uma barreira sou desafiado a ultrapassá-la. Se aquilo for muito fácil, perde logo o interesse. Portanto, isto aconteceu porque queria produzir um filme. Mas, como tudo na vida, isto é um ‘caos’, uma peça empurra a outra…

Já agora, qual era o filme?
O “Arte de Roubar” (2008). Não era nada do outro mundo [risos]! Era um filme diferente em Portugal. Queria fazer uma comédia negra de ação num país onde ninguém achava que isso tinha saída. Disseram-me coisas como: “isso é demasiado arriscado, é muito Tarantino”. Pois, e é um tipo que eu adoro, mas vocês só falam no Tarantino e há outros, conheço outros em Espanha, no Canadá… e eu não posso pertencer a esse ‘movimento’? Mesmo que corra mal, vou fazer! E fiz.

Gosta de arriscar, é isso?
Fiz umas coisas bem, outras mal, mas tenho o hábito de fazer o balanço depois de cada projeto para aprender com os erros. Hoje sei claramente onde errei. Tento sempre perceber quais foram as minhas piores decisões e descubro quase sempre onde falhei. Não sou daqueles tipos que acha que todos os filmes que faz são fantásticos. Acima de tudo, e o mais difícil, é conseguir uma fidelidade muito grande entre o que pensamos e aquilo que está plasmado no ecrã. Lembro-me de uma entrevista que fizeram ao Spielberg acerca d’ “O Império do Sol” – adoro o filme, é mágico, e além disso ele é genial a pensar planos – em que dizia: “Não, não sou [genial]. Aquilo é uma parte do que eu penso. Nunca chego lá.” Estamos a falar de um filme sobre a guerra. Poucos cineastas sabem fazê-lo daquela maneira, em que há um equilíbrio fantástico entre o drama e a magia…

A Stopline está aberta a outros países da Lusofonia, como Angola e Moçambique? Quais são as maiores dificuldades?
A dificuldade ‘física’ é a mesma: dinheiro. O facto objetivo é o investimento, mas qual é a causa do problema objetivo do investimento? O problema político e também o problema social. Ora, não vamos colocar o ónus apenas nos políticos, que têm problemas brutais para resolver nos países. Não podemos ‘cobrar-lhes’ uma política para o cinema quando não têm uma política de escolaridade e de saúde, como seria de desejar. Mas acho obrigatório a ‘lusofonia do audiovisual’. Ela existe na literatura. A literatura é fácil de cruzar. Fico feliz pelo facto de os escritores portugueses estarem nas livrarias no Brasil e alguns até vivem lá. Antigamente não acontecia tanto, havia mais uma relação com os clássicos – nós com os clássicos brasileiros e eles com os clássicos portugueses. Hoje, os escritores contemporâneos são editados no Brasil. É um caminho natural, depende do esforço de cada um. Quem quiser entrar no Brasil, entra. Nenhum mercado é fácil, e o Brasil também não é, mas não há portas fechadas. Na música não é assim, é ao contrário: a música viaja para aqui, há discrepâncias… Mas, em todos os mercados lusófonos, o da literatura é talvez o mais homogéneo. Muitos escritores vão dizer, “ó Leonel, é mentira, porque a maioria não consegue!” Mas há muitos a conseguir e muitos a ser editados. Há mais cruzamento. Se quisermos, de todas as artes, é talvez aquela que mais cruza com a cultura.

E o cinema?
É uma enorme dificuldade, porque estamos paralisados.

Pode explicar melhor?
Se nos aparecessem hoje cá com uma novela do Brasil e se os portugueses nunca tivessem ouvido português do Brasil, não iam perceber patavina. De facto, eles falam de forma diferente. Eu tenho dificuldade em entender os madeirenses e alguns cabo-verdianos, por exemplo. Também falam português, mas eu não entendo. É normal. Foi uma evolução natural do português e ainda bem que foi assim! Eles adicionaram dificuldades e uma cultura própria. Agora, temos de pegar nisto e fazer disto uma ‘unidade’ com a diferença. Da mesma forma que Espanha vive com várias línguas, mas não tem uma unidade. Isso quer dizer que afinal é possível – quando se quer fazer!

O audiovisual tem um papel a desempenhar nesse campo?
Acho que o audiovisual vai fazer muito por toda a unidade desta grande família cultural. Primeiro, é o que tem mais facilidade de penetração. Segundo, vivemos na era da imagem, do audiovisual. Os grandes estudiosos da comunicação não sabem em que dimensão ou qual o novo estádio em que vamos entrar, mas durante umas décadas será esse o caminho, com a imagem a chegar a todo o lado. Isto é uma realidade e não estou a criticar as telenovelas, tiveram o seu papel. Aculturaram-nos e não nos sentimos ofendidos. Ninguém nos obrigou a comprá-las! [risos] Os políticos e os diretores dos canais de televisão aceitaram, acharam bem. Estamos a falar de gente bem formada, com cursos e tudo isso. São pessoas cultas, digo eu.

Está a ser irónico?
Toda a gente que filtrou isto achou bem. Não estou a ser irónico quando digo isto. Bem, estou a ser irónico q.b., mas não estou a sê-lo na conclusão final. Essas pessoas são de facto cultas e inteligentes, mas tomaram essa decisão por alguma razão. Não estou contra, mas tudo depende daquilo que queremos fazer. Eu decidi isso em relação ao Brasil há muitos anos: é isso que quero fazer e é por isso que praticamente todos os meses vou ao Brasil. Tem de ser assim. É uma questão de foco, é uma coisa sustentada.

Tem parceiros no terreno?
Tenho muitos parceiros no Brasil e uma sociedade minha há muitos anos, que vai começar a fazer mais coisas do que fazia antes. O meu objetivo não é ter uma produtora que fature muito nem fazer muitos projetos com produtores grandes. O que eu quero é fazer muitos projetos, bons se possível, entre Portugal e o Brasil. Se, para isso, tenho que ter uma produtora, recorrer a parceiros, receber services deles, faço o que for preciso porque tudo é válido. O objetivo é a ligação entre estes dois mercados. Sou um ‘grande abre olhos’, alguém que eles ouvem há 15 anos… Hoje em dia tenho bons amigos, com muita credibilidade no mercado. Há 15 anos era muito difícil arranjar uma coprodução no Brasil, hoje tenho muitas. É um percurso. Estou num bom momento com o Brasil.

É possível viver do cinema?
A Stopline fez 13 anos em fevereiro, por isso é que estamos a mudar a marca, o layout. Abrimos a publicidade há oito, nove anos e achámos que era o momento de mudar a ‘cara’, pois atingimos um “número” importante – não sou supersticioso em relação ao ‘13’ – e também porque estamos a desenhar um novo ciclo. Passámos momentos muito difíceis durante a crise. A maior parte das produtoras faliram, outras fecharam, outras estiveram quase sem atividade… A Stopline – que é hoje uma das maiores produtoras, aliás, a maior produtora nas três áreas [cinema, televisão e publicidade] – atravessou muitas dificuldades, mas sobreviveu e já passou o ‘cabo das tormentas’. A recuperação começou há algum tempo e agora estamos a crescer e a olhar para o mundo com entusiasmo, sabendo que há um caminho. A ‘pancada’ da crise foi boa porque nos fez ver outro horizonte. Hoje estamos preparados!

Alguma das três áreas tem maior importância ao nível financeiro?
São complementares, mas num país como o nosso, tão pequeno e com tantas fragilidades, vão sendo prioritárias por momentos, à vez. Quando começou a crise foi a publicidade que nos salvou. O ICA esteve fechado dois anos e meio… nem subsídios havia. Não se podia concorrer [aos concursos], quanto mais ganhar! Uma crise brutal. Hoje olho para isto com um grande otimismo, mas as pessoas esquecem-se rapidamente que estivemos muito mal há apenas quatro anos. O País, e o audiovisual ainda mais! O nosso processo começa quando reagimos e decidimos produzir as comédias [cinema] e as séries de televisão em paralelo. Ou seja, há uns seis, sete anos atrás, a publicidade foi muito importante para a nossa sobrevivência. De há três anos para cá foi o cinema que alimentou esta casa – é a área que mais resulta e que mais dinheiro dá, por incrível que pareça. E há uns quatro anos definimos que as séries de televisão vão ser a área forte da Stopline. Fomos trabalhando tudo isto em paralelo, mas nem sempre estas áreas reagiram em uníssono. Cada coisa foi reagindo a um dado momento do país.

As televisões portuguesas apostam na produção nacional?
Não podemos esquecer que vivemos num país em que a SIC e a TVI não compram mini-séries, não produzem filmes. Contribuem com dinheiro para o financiamento do Instituto de Cinema, mas não participam, o que é uma coisa estranha. Isso cria uma lacuna muito grande no mercado, porque deixa de haver concorrência. Seria interessante termos canais a disputar a compra de uma futura comédia, por exemplo. Se “O Pátio das Cantigas” (2015) deu dinheiro a todos e correu bem, agora podia ir para outro canal, mas não temos isso. Resultado? Vivemos muito da política da RTP. Felizmente existe e está com uma boa filosofia, mas também percebo que não estamos a viver tempos fantásticos e que não se passa do ‘oito para o oitenta’ de um momento para o outro. É muito fácil criticar, mas a verdade é que não se sai de uma situação crítica de repente. No entanto, deu-se um grande passo: além de se estarem produzir muitas séries de ficção, também se está a tentar usar o prime time para passar séries, como acontece em qualquer país ocidental decente e civilizado. Acho isso uma decisão progressista. Congratulo-me, eles sabem [RTP] e também estou a participar. A Stopline já produziu umas cinco ou seis séries. Somos a produtora que mais mini-séries tem feito em Portugal porque eu achava que era um caminho, mas já começámos há cinco anos. E as pessoas diziam: “mas cá não se fazem mini-séries”. Pois, mas haverá um dia em que se vão fazer e nós temos de semear antes, não podemos esperar que alguém dê o passo. Se ficarmos sempre à espera que alguém dê o passo, isto nunca acontece. Hoje somos um dos principais parceiros da RTP a fazer séries, somos um parceiro seguro, feliz e com bastante trabalho. Além disso, está a abrir-nos portas para produzir lá fora e essa é a próxima grande surpresa…

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