Lean: Aprender com as boas práticas japonesas

Mudar o comportamento das pessoas para melhorar os processos de trabalho. Isto é a gestão lean. Nascida no Japão, está presente em Portugal.

O avião que acaba de aterrar no Porto traz a bordo uma pequena comitiva da Burberry. No aeroporto Francisco Sá Carneiro, os colaboradores da marca de vestuário de luxo britânica dirigem-se a um autocarro privado com destino ao Kaizen Institute, onde se inicia a Benchmarktour que os traz ao nosso país. Surpreendido?

“Todos os anos vamos ao Japão e levamos empresas ao Japão, mas todos os meses recebemos cá estrangeiros”, explica ao Jornal Económico António Costa, senior partner do Kaizen Institute para a Europa Ocidental. O Kaizen aplica a chamada gestão lean, uma transformação cultural nas empresas, através da mudança de comportamentos e de processos. Este tipo de gestão, que visa a melhoria contínua nas empresas, assenta num conjunto de boas práticas que envolvem todos os que trabalham numa empresa, desde a base até ao topo. Não é por acaso que, entre a dezena de colaboradores da Burberry que estão na Invicta a observar as boas práticas implementadas em empresas portuguesas, há desde responsáveis do planeamento até operadores de fábrica. A Benchmarktour inclui também treino-formação. Neste grupo, as visitas são a diferentes empresas como a  Salsa, a Copotêxtil e a Trecar, tal como a Bosch, várias vezes visitada. Tem um modelo de melhoria contínua implementado em todas as suas unidades, nomeadamente em Aveiro, Braga e Ovar. É considerada um caso de estudo mundial. Os ingleses regressarão a Londres com “energia renovada e muitas ideias”. Poderíamos dar muitos outros exemplos, visto a gestão lean aplicar-se a empresas públicas e privadas, de diferentes dimensões.

Em Portugal, este tipo de gestão assume também relevância na área hospitalar. O Centro Hospitalar do Porto e José de Mello Saúde vivem também práticas desta natureza. “Em todo o lado onde existem pessoas e existem processos há oportunidades para melhorar, aplicando metodologias de melhoria contínua”.

Fundado em 1985 com a publicação do livro “Kaizen: A chave para o Sucesso Competitivo do Japão”, livro que descreve de forma estruturada a metodologia aplicada pelas empresas japonesas, em particular pelo grupo Toyota, a “melhoria contínua” tem como pai Masaaki Imai. “O que aconteceu no Japão foi um movimento de qualidade, sustentado numa análise profunda de como as empresas trabalham e de como os métodos produtivos podem ser alterados para serem mais eficientes”. Que métodos são esses?

“Começa com uma fase de diagnóstico, onde há um alinhamento da visão estratégica”, explica António Costa, descodificando: “Uma equipa multidisciplinar constituída por elementos da empresa e do Kaizen descreve a forma de trabalhar da organização, identifica os desperdícios, fixa as oportunidades de melhoria e aponta as atividades que devem ser alteradas ou até eliminadas”. A fase de diagnóstico é completada com o desenho de soluções, quantificação de benefícios e construção do plano que conduzirá a empresa a atingir os objetivos. A seguir vem o lado prático, a fase da implementação, com a monitorização permanente dos indicadores. As ondas de melhoria têm ciclos semestrais, para ajudar na focalização das atividades e avaliação dos resultados globais. No final de cada ciclo é lançado o ciclo seguinte, dos próximos seis meses, para assegurar uma constante dinâmica de melhoria. As equipas da organização ganham autonomia e competências próprias, com ferramentas de gestão e implementação de melhorias.

“Não trazemos um custo, aportamos um resultado, e como este é maior do que o custo, a empresa está sempre a ganhar”, realça António Costa quando questionado sobre o preço destes. Na prática, são serviços de consultoria premium.
A vontade de melhorar é o ponto de partida para alcançar as boas práticas. Mas, por si só, não chega. Há também que haver disponibilidade para o fazer. “A mudança deve abranger todas as áreas da empresa e todos os patamares da hierarquia, a começar pelo topo”, sublinha o responsável do Kaizen.

A história do Kaizen Institute em Portugal remonta a 1999, ano em que Masaaki Imai visitou Portugal. Os primeiros projetos vieram do exterior, de empresas multinacionais que operavam em Portugal. Em 2010 já havia casos de estudo. No que respeita às Benchamarktours, a verdadeira oportunidade chegaria em 2011. O acidente que empurrou a central japonesa de Fukushima para o segundo maior desastre nuclear da história, foi como que a rampa de lançamento para estas iniciativas realizadas pelo Kaizen Institute Portugal. Hoje contabiliza já mais de 50 visitas e tem na  carteira de clientes empresas como a Burberrys e as tecnológicas Philips Nokia, só para citar algumas.

Em rigor, não passa um mês sem que um avião aterre no Francisco Sá Carneiro com um grupo de estrangeiros que vem observar e sentir as boas práticas implementadas. Definitivamente, o Porto está a encurtar a distância entre o Ocidente e o Japão.



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