João Seabra: Ele veio de Braga diretamente para o Humor Fest

O comediante João Seabra veio de Braga para o Humor Fest e trouxe consigo alguns bonecos.

Eu vim de Braga. Era assim que João Seabra iniciava inúmeras actuações no Levanta-te e Ri um programa que lançou muitos comediantes no humor nacional. Ao Humor Fest trouxe um espectáculo a que chama ‘A Falar com o Boneco’ onde literalmente fala mesmo com bonecos.

Eu vim de Braga. Como é que surgiu a expressão?

Não foi uma coisa muito pensada. A primeira vez que fui ao Levanta-te e Ri ainda era nos Estúdios da Valentim de Carvalho em Lisboa. Eu cheguei lá e disse eu vim de Braga e a verdade é que tinha vindo. A segunda vez fiz o mesmo e depois as pessoas pediam para dizer. E ficou. Mas não foi uma coisa muito pensada nem intencional. A partir daí ficou uma imagem de marca e comecei a fazer.

Pensei que tinhas uma história toda enfeitada sobre o assunto.

Não. Por acaso gostava de ter. Se calhar tenho de inventar uma história sobre isso. Mas não tenho.

E qual seria essa história?

Não sei. Tenho ainda de pensar nisso. Mas tem de ser uma coisa que meta, sei lá, uma trisavó quase a morrer, a fazer uma promessa e a dizer que se um dia fosse então ganhava dois milhões de euros. Uma coisa assim.

Como é que começaste no stand-up?

O humor sempre foi uma coisa que gostei muito. Nunca pensei durante muitos anos fazer vida de humorista ou ser um humorista. Houve um dia em existiu um espectáculo de stand-up em Braga e uma moça veio ter comigo e perguntou se eu queria me inscrever. Assim fiz. Foi mais um acaso na minha vida.

Como é que vês a evolução do stand-up desde o Levanta-te e Ri até agora?

A nova geração tem muita gente mas acho que cometem um erro. 98% vai para o humor negro. O humor negro é de nicho e é difícil de se fazer. É uma linha muito ténue entre o humor e o estar a chocar as pessoas gratuitamente.

Onde é que foste buscar o nome ‘A Falar com o Boneco’?

No fundo é mesmo isso. Olhando para o meu espectáculo é aquilo que estou a fazer. Espremendo bem é isso.

E essa experiência de falares com os bonecos como tem corrido?

Tem corrido bem. É uma coisa que cada vez mais gosto de fazer. Dar-lhes mais vida e mais personalidade. Criar-lhes uma voz, uma maneira de falar, e dar-lhes vida é uma das coisas que gosto de fazer.

Os bonecos são mais interessantes que as pessoas?

Alguns dos bonecos são bem mais interessantes que muitas pessoas. Há alguns com maneiras de pensar engraçadas.

Ao criares essas personagens também consegues criar laços afectivos. Como é que funciona essa relação?

Começa a ser um bocado problemático e doentio estar a falar com os bonecos e criar esses laços que no fundo acaba por ser eu a falar com esse boneco. É a mesma coisa que ter várias personalidades e a estar a ter discussões quando no fundo é só eu. É engraçado e dá-me uma ginástica mental de que gosto.

Tens dificuldade depois de criares os bonecos em os largar?

Há alguns bonecos que começam a ganhar mais fama do que eu. E as pessoas já nem me querem ouvir só querem ouvir o boneco. Começa a ficar preocupante. Depois muitas vezes só querem contratar o boneco e não me querem contratar a mim. Já tive bonecos a dizerem-me que se vão embora e que têm ofertas melhores.

Como é que geres essas expectativas entre o espectáculo que queres montar e depois a vontade das pessoas?

Aí tenho de um bocado autoritário. As pessoas por mais que digam quero isto ou aquilo eu é que sei porque o espectáculo é meu. Porque assim estamos lixados. Se fossemos a ouvir a opinião de 500 pessoas todas elas tinham uma opinião diferente. Tento fazer o melhor que sei para agradar as 500 pessoas o melhor possível.

O teu processo criativo como é que funciona?

Depende muito. Há dias em que não sai nada e não puxo. Há dias em que tento puxar para criar e não sai nada. Há outros em que não quero criar nada e a cabeça começa a debitar e saem coisas. Às vezes até mesmo em cima do palco sai algo. Não há um processo nem um esquema de trabalho. É quando acontece. O meu processo é muito caótico. Não existem regras.

Tens presença em redes sociais. Como é que lidas com isso?

Há alturas em que trabalho mais nelas. Existem alturas em que devia trabalhar mais e não trabalho. Como tenho um ‘background’ de multimédia às vezes aproveito outras vezes desleixo-me. Não há plano nenhum. Pode haver semanas em que faço 20 vídeos e depois fico meses sem fazer nada.

Os trolls é um tema recorrente quando falamos de humor nas redes sociais. Por exemplo o Rui Sinel de Cordes tem umas reacções mais fortes de vez em quando. Tens alguma maneira de lidar com esse lado?

Depende muito do humor que apresentas. O Rui Sinel de Cordes tem um humor mais provocante. Provoca reacção. Por vezes é o riso ou algo mais forte. Eu fujo muito disso. No meu espectáculo quero que as pessoas se riam. Não gosto de incomodar o público. Claro que há-de acontecer sempre por mais que não queiras e achares que é um tema pacífico há sempre alguém que diz que não concorda ou acha que és parvo.

Segues em frente?

Sim ou olho para a pessoa e vejo em que onda está. Às vezes brinco com ela. Se vir que está para causar confusão esqueço.

O ventriloquismo como começou?

Foi sempre uma coisa que gostei muito. Via umas séries que tinham um ventríloquo. Foi sempre uma coisa que me fascinou como criança. Tive um desafio. Arranjaram-me um macaco e perguntaram se era capaz de fazer alguma coisa com aquilo. Comecei a investigar e fiz. Foi a partir daí que comecei a procurar outros bonecos que achei que tinham piada e a escrever para eles e a dar-lhes vida.

Em termos de futuro como vês as coisas?

Não penso muito nisso nem programo muito. Vou fazendo o dia a dia. Tenho algumas coisas na cabeça que gostava de criar mas não sei se algum dia as conseguirei fazer. Voltando um pouco atrás a palavra é sempre caótico. Não faço ideia. Sinto-me descansado olhando para o futuro porque tenho ideias na cabeça. Se não tivesse ideia nenhuma ficava preocupado. Algumas ideias não sairão porque são completamente parvas.

Tens um exemplo.

Se as implementar hás-de saber.

Tens alguma coisa que ainda não tenhas feito e tenhas a ambição de concretizar?

Já cheguei a escrever uns guiões de umas séries que eu achava que iriam ter piada. Gostava de ter carta branca para fazer o que quisesse nem que fosse num canal de cabo.

Vou-te deixar um desafio. Se fosses director de um jornal o que fazias?

Um jornal é mais difícil.

Se calhar começavas por eu vim de Braga.

O título do jornal podia ser eu vim de Braga. As notícias nenhuma era escrita. Era estilo cartoon e banda desenhada.

 





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