Isabel Alçada: “Precisamos de investir em processos educativos eficientes”

A antiga ministra da Educação elege a retenção e o abandono escolar como áreas onde ainda há um longo caminho a fazer.

Cristina Bernardo

“Precisamos de investir em áreas e dimensões que valham, realmente, a pena e, para isso, a investigação é essencial”, afirma Isabel Alçada ao Jornal Económico. A antiga ministra da Educação salienta o papel da investigação e do conhecimento na tomada de decisões, de forma a permitir a obtenção de resultados eficientes. Daí a importância de sistematizar os números por detrás da realidade educativa.

No geral, é visível que o panorama educativo mudou muito nas últimas décadas, que Portugal progrediu, que o resultado é hoje melhor em virtude do investimento dos governos, das organizações ligadas à educação, dos diretores de escola, dos professores, em suma, da sociedade no seu todo, diz Isabel Alçada. No Ensino Básico e no Ensino Secundário, Portugal brilha em avaliações internacionais como TIMMS (1.º ciclo) e PISA (jovens de 15 anos), que avalia a literacia de Leitura, Matemática e Ciências. “Portugal foi um dos países que mais progrediu e um dos que melhor conseguiu compensar assimetrias associadas à origem sócio-económica dos alunos”, realça.

Mas, especificamente, o que é que explica estes resultados? “É o que precisamos saber”, diz a especialista em educação, salientando: “Precisamos de ir à ciência buscar a informação para que o investimento futuro seja bem direcionado”. E priorizado. Os números e a ciência deveriam ser a retaguarda da tutela na definição das suas políticas educativas. O seu caráter utilitário estende-se igualmente às escolas, aos professores, aos pais e encarregados de educação, e aos alunos. Resumindo: interessa a todos.

Qual é o impacto do professor na aprendizagem? O que é que na ação do professor é mais benéfico para os alunos? Quais as dimensões do seu trabalho que têm melhor efeito, em que condições e em que contextos? Analisar a forma como o professor trabalha é uma das investigações em curso no Observatório da Educação, lançado pelo EDULOG, o think tank da Fundação Belmiro de Azevedo que se dedica a trabalhar e a produzir indicadores na área da educação, e cujo conselho consultivo Isabel Alçada integra. “É fundamental alicerçar a decisão numa base científica. Ir à ciência buscar dados onde esta se apoie”, explica a antiga ministra da Educação. “Se tivermos informação credível, naturalmente, podemos orientar muito melhor a nossa ação”, sublinha.

O EDULOG é fiel à matriz do seu fundador, o engenheiro que criou a Sonae e dezenas de outras empresas.Tem, portanto, uma orientação que reflete a tentativa que as empresas e as grandes organizações seguem, que é garantir resultados para o seu trabalho. Porém, numa empresa isso parece mais fácil, pois tudo se afigura mensurável: vendas, lucro, rácios. Mas na educação… quais são esses resultados?!

“O desenvolvimento das pessoas, a aprendizagem”, diz Isabel Alçada, acrescentando, a interiorização, os valores, assim como a forma como as crianças e os jovens se relacionam no contexto da escola. “A aprendizagem é muito importante, mas também a forma como verificamos que as capacidades cognitivas das pessoas estão a ser desenvolvidas”, sublinha.

No panorama do ensino português, o abandono escolar (jovens entre os 18 e os 24 anos que não cumpriram o secundário nem estão inscritos em nenhum processo de formação) é um dos aspetos mais negativos. A retenção é outro. Em países como o Reino Unido, a Austrália e a Nova Zelândia não existe retenção, um fator, que, regra geral, é referido em todos os estudos com uma carga negativa. Em Portugal, no 2.º ano de escolaridade, a retenção atinge os 12%.

Abandono e chumbos são aspetos que Portugal tem de resolver para tornar a sua economia mais competitiva e a sua sociedade mais coesa. Isabel Alçada anui: “Precisamos absolutamente de investir em processos educativos que sejam eficientes.” No outro prato da balança do ensino secundário, como um dos fatores que contribui para melhorar a eficiência do sistema, está o ensino profissional. “Temos que olhar melhor para o ensino profissional. Estudar os percursos educativos e profissionais de quem o frequentou…”, sublinha. Para a seguir tomar decisões respaldadas no conhecimento.

Artigo publicado na edição digital do Jornal Económico. Assine aqui para ter acesso aos nossos conteúdos em primeira mão.



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