Fusão à vista nas ‘indústrias do ar’

Em entrevista, Paulo Chaves, recém-eleito líder da PEMAS, revela que um dos objetivos do mandato é conseguir alcançar uma fusão entre as três associações deste cluster, para ganhar massa crítica.

O cluster nacional das indústrias aeronáutica, espacial e de defesa (AED) está a dar os primeiros passos no sentido de uma fusão das suas três associações representativas, para ganhar escala e melhor aproveitar oportunidades de negócio, nas frentes interna e externa. Em entrevista ao Jornal Económico, Paulo Chaves, presidente da PEMAS – Portuguese Aerospace Industry Association (Associação da Indústria Portuguesa Aeroespacial), recentemente eleito para o cargo com um mandato de dois anos, confessa, em entrevista ao Jornal Económico, que tem “três grandes desafios”.

“O primeiro desafio é reforçar a participação das empresas portuguesas na cadeia de valor da indústria aeronáutica a nível europeu. O segundo objetivo é participar mais na cadeia de desenvolvimento e do conhecimento, é levarmos a indústria o mais para jusante possível para podermos entrar em contacto com os clientes finais e com o mercado. O terceiro objetivo é conseguir um espaço único entre os três pilares: a indústria aeronáutica, a indústria espacial e a indústria de defesa”, resumiu Paulo Chaves.

Na aeronáutica, a associação representativa é a PEMAS, na defesa é a Danotec e no espaço a Proespaço. Questionado sobre como pretende conseguir esse espaço único para o cluster nacional de AED, Paulo Chaves entende que “existem perspetivas muito boas para os três setores e expetativas que possam criar uma associação comum”. “Penso que é viável para os próximos tempos termos um espaço partilhado. Já existe uma dinâmica partilhada e que ainda pode ser muito melhor. Já desde 2013 que o AED Cluster existe, já tem órgãos sociais”, insiste.

A fusão das associações deste cluster seria uma resposta positiva face ao crescente peso que estas três indústrias começam a ter no panorama nacional de faturação, exportações, aposta na tecnologia e inovação e criação de empregos.
“Com números conservadores, este sector já vale mais de 1.500 milhões de euros de volume de negócios, com a presença de mais de 60 entidades e empresas, existindo centros de interface com institutos universitários. O setor tem um volume de exportações acima de 80% da faturação e emprega 15 mil postos de trabalho”, sublinha o presidente da PEMAS, sendo de referir que grande parte dos empregados nestas indústrias têm grau de escolaridade universitário.

Mas existem estimativas de que o setor já possa hoje valer bem mais que isto, entre dois mil e 2,5 mil milhões de euros de volume de negócios anual. E aqui reside outro problema que Paulo Chaves quer resolver. “Temos de ter um retrato mais preciso. Os valores que lhe indiquei são valores que estimamos. Temos de ter um critério mais preciso. Existem perpetivas muito boas para os três setores, mas também existem outros objetivos a conseguir, como agregar a informação referente ao setor”.

Para o presidente da PEMAS, que representa 32 empresas, este “é um cluster emergente, mas que eu acredito que tem muito potencial para crescer, ainda por cima quando tem o vento a soprar a favor nas três velas, na defesa, no espaço e na aeronáutica”.

Entre as grandes empresas deste cluster contam-se a Embraer, OGMA, TAPManutenção, ISQ- Instituto de Soldadura e Qualidade, Lauak, Empordef, Tekever, Efacec, Indra, Edisoft ou Thales, entre outras. Algumas delas com grande experiência e histórias de 70 ou 90 anos nos respetivos currículos. “Um dos casos de sucesso deste cluster é a Embraer Évora, que produz em duas fábricas. A sua produção tende a aumentar nos próximos meses, tendo em conta os projetos e os pacotes de encomendas, que se juntam aos trabalhos já em curso”, avança Paulo Chaves. O presidente da PEMAS  destaca que “existe uma perspetiva de crescimento de faturação e de exportações”, acrescentando que “isto tem um efeito em cadeia: por exemplo, do lado da defesa, a OGMA, tem tido uma prestação que tem melhorado muito nos últimos anos”, principalmente na linha de negócio de MRO – Maintenance, Repair & Overhauling (manutenção, reparação e revisão).

Segundo o presidente da PEMAS, o mesmo se está a passar no setor da defesa: “as reparações de fundo funcionam como uma grande locomotiva também no setor da defesa, que também tem estado em crescimento na faturação combinada e no volume de exportações”.

Na aeronáutica, “o desenvolvimento de asas de carbono, para os Boeing 787 e para os Airbus A350, pode ser uma oportunidade”. Paulo Chaves diz que “o fabrico deste tipo de asas de avião ainda é raro à escala europeia e mundial, mas em Portugal já fizemos ensaios com demonstrador para a Embraer e isso na Europa não é algo comum. Demorou três anos e foi um sucesso. O objetivo foi cumprido e já foi feita a validação e as empresas continuam agora a desenvolver o produto”.

Uma mini-nave espacial testada em Castelo Branco
Outro projeto em destaque está integrado no projeto Passaro, para a Airbus, que neste momento é um dos dois maiores fabricantes de aviões a nível mundial. “Foi constituído um consórcio português, que está muito bem estruturado, liderado pela Caetano Aeronautic. Numa segunda linha surgem outras entidades, como o ISQ. Este consórcio é ‘core partner’ da Airbus, escolhido em forte concorrência internacional, num concurso cuja decisão foi conhecida em 2016. Trata-se de um trabalho de ‘intermediate’, ou seja, de um protótipo experimental, de um veículo para a ESA – Agência Espacial Europeia, designado IXV – Intermediate eXperimental Vehicle, uma espécie de mini-nave espacial”, revela Paulo Chaves.

Para este responsável, o IXV “será um veículo não tripulado que deverá ter vários tipos de missões: transportar carga útil da estação especial para a Terra; para observação da Terra como uma espécie de satélite; ou de ‘servicing’, isto é, de assistência a satélites, em fase de experiências espaciais (‘space experiments’)”.

Este veículo já voou em 2015, só deverá funcionar de forma regular em 2020 e a ser produzido em série em 2023. Há várias empresas portuguesas a participar neste projeto, como o ISQ, que já dedicou quatro a cinco anos de trabalho a este projeto, juntamente com o fabricante francês. O teste de qualificação do nariz deste veículo, que foi fabricado com material compósito de matriz cerâmica, foi todo feito em Portugal, em Castelo Branco. E Paulo Chaves entende que pode haver a possibilidade de reutilizar a pista de Santa Maria, nos Açores, para fazer testes ao IXV.



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