“Fúria e fogo” entre a Coreia do Norte e os EUA explicados em cinco perguntas

Começa a apertar a margem de manobra para os Estados Unidos e aliados porem fim ao desejo nuclear de Kim Jong-un. Embora seja improvável, os analistas e académicos começam a analisar as consequências de um eventual conflito entre os dois países.

O presidente norte-americano, Donald Trump, diz que gostaria “que todos os países se livrassem das suas armas nucleares” e com os desenvolvimentos armamentísticos do líder norte-coreano, Kim Jong-un, o republicano reitera que “ou a Coreia do Norte se acalma ou vai ter problemas como poucas nações tiveram”. O clima de tensão está ao rubro e de parte a parte desdobram-se as ameaças e as trocas de acusações.

Depois de o presidente norte-americano ter ameaçado avançar com “fogo e fúria” contra a Coreia da Norte, Kim Jong-un revelou estar a preparar um ataque com mísseis balísticos contra a ilha de Guam, que pertence aos Estados Unidos, dizendo que este deve estar pronto “dentro de dias”. A provocação não caiu bem ao republicano que veio mais tarde dizer que se calhar foi demasiado brando nas suas ameaças.

Com a revelação de que a Coreia do Norte pode ter finalmente conseguido diminuir o tamanho de uma bomba nuclear, de forma a conseguir incorporar o engenho num dos mísseis intercontinentais, começa a apertar a margem de manobra dos Estados Unidos e aliados porem fim ao desejo nuclear de Kim Jong-un. Embora seja improvável, os analistas e académicos começam a analisar as consequências de um eventual conflito entre os dois países.

 

O que está em causa neste conflito?

A retórica dos Estados Unidos tem insistido na redução do programa nuclear norte-coreano, que vai contra o Tratado de não-proliferação de armas nucleares, ratificado por vários países, após a Segunda Guerra Mundial e verificados os efeitos devastadores das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki.

No entanto, não há sinais de que a Coreia do Norte tenha qualquer tipo de intenção de vir a abrir mão das suas armas nucleares. Antes pelo contrário. O país acredita que o seu desenvolvimento armamentístico é a razão pela qual o país ainda não foi varrido do mapa. O regime de Kim Jong-un acredita estar rodeado de inimigos com armas nucleares e é essa a narrativa que é contada aos norte-coreanos para criar um sentimento de união.

Desde então, o país tem procurado desenvolver as suas próprias armas nucleares e criar uma sociedade altamente militarizada. Durante as comemorações do dia do nascimento do fundador da República norte-coreana, Kim Il-sung, avô do atual líder, a Coreia do Norte desfilou aos olhos de todos um vasto arsenal militar e afirmou estar pronta para “responder a uma guerra total com uma guerra total, e responder com ataques nucleares a qualquer ataque nuclear”.

 

Qual é a capacidade militar da Coreia do Norte?

Não é claro se a Coreia do Norte tem ou não a capacidade militar para atingir cidades norte-americanas, com mísseis termonucleares. O mesmo vale para os Estados Unidos, que apesar de dizerem que são “de longe, a nação nuclear mais poderosa do mundo”, não se sabe ao certo se teriam a capacidade de rispostar às ameaças norte-coreanas com o lançamento de mísseis intercontinentais.

A única certeza é de que o arsenal norte-coreano tem vindo a ser desenvolvido nas últimas décadas. Dos foguetes de artilharia criados a partir de modelos da Segunda Guerra Mundial, o país para passou a desenvolver mísseis de médio alcance capazes de atingir alvos no Oceano Pacífico. A grande obsessão da Coreia do Norte é construir mísseis de longa distância, com a finalidade de atingir os Estados Unidos.

De acordo com um relatório classificado dos serviços de inteligência do Departamento de Defesa norte-americano, a Coreia do Norte terá conseguido diminuir suficientemente a dimensão de uma bomba nuclear de forma a conseguir incorporar o engenho num dos seus mísseis intercontinentais. Quer isto dizer que o país pode reunir as condições para levar a cabo um lançamento de mísseis balísticos com ogivas nucleares.

 

Podem as sanções económicas surtir efeito e demover a vontade de Kim Jong-un de prosseguir com o desenvolvimento nuclear?

Ao regime de Pyongynag foram aplicadas nos últimos anos várias sanções económicas pelo constante incumprimento dos acordos de não-proliferação de armas nucleares. Kim Jong-un deu luz verde para que os ensaios de mísseis balísticos continuassem ainda assim, afixiando ainda mais um país onde a maioria da populção sofre de graves limitações económicas e vive na mais absoluta miséria.

Um estudo recente da Organização das Nações Unidas (ONU) veio mostrar que grande parte desses avanços armamentísticos foram feitos tendo por base componentes eletrónicos que terão sido conseguidos através da China, que é o maior importador dos produtos norte-coreano e um parceiro comercial de peso de Pyongyang. Quer isto dizer que a China pode fazer mais e melhor na luta para travar a ameaça norte-coreana e é nestes dados que Donald Trump se baseia para acusar a Pequim de falta de comprometimento para travar o conflito.

No entanto, esta terça-feira, a China garantiu estar empenhada em avançar com uma maior pressão sobre a Coreia do Norte para que esta abrande o seu programa de desenvolvimento nuclear e afirmou estar disposta a pagar o preço pelas sanções económicas aplicadas ao país.

As últimas sanções aprovadas por unanimidade na sede da ONU, no passado sábado, podem vir a privar Pyongyang de mil milhões de dólares de receitas anuais. A resolução da ONU proíbe as exportações norte-coreanas de carvão, ferro, chumbo e  frutos do mar e vai levar a fortes quebras nas relações comerciais da China com a Coreia do Norte. Os analistas acreditam que a nova postura adotada por Pequim pode vir a significar também um novo capítulo na história do conflito e, quem sabe, um abrandamento das ameaças de Kim Jong-un.

 

Qual seria o impacto económico no caso de rebentar um conflito entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte?

“Os conflitos militares passados fornecem um bom panorama sobre os impactos que os conflitos militares podem ter na economia”, explica Gareth Leather, a analista da consultora Capital Economics, ao jornal ‘Bussiness Insider’. “O conflito mais devastador desde a Segunda Guerra Mundial foi a Guerra da Coreia (entre 1950 e 1953), o que vitimou cerca de 1,2 milhões de sul-coreanos e levou a uma queda de mais de 80% no PIB do país”.

Gareth Leather nota que a península da Coreia seria o palco mais provável para um eventual conflito e a Coreia do Sul seria um dos principais afetados pela guerra. Seul representa 2% do PIB global e é o lar de importantes multinacionais, como a Samsung e a Hyundai. Um abalo na sua economia significaria uma queda generalizada na economia mundial.

“Se a produção sul-coreana fosse gravemente afetada pela guerra, haveriam reprecussões em todo o mundo”, afirma a analista da consultora Capital Economics, acrescentando que demoraria em média uma década para o país se reerguer.

 

Como pode ser resolvido este problema?

Muitos analistas e académicos acreditam que está na hora de os Estados Unidos se sentarem à mesa com a Coreia do Norte e encetarem negociações para evitar que a situação se agrave ainda mais e atinja contornos inimagináveis.

Jeffrey Lewis, diretor do programa de não-proliferação de armas nucleares na Ásia e professor no Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury, indica à agência ‘Bloomberg’ que é fulcral que o problema seja resolvido por meios diplomáticos. O especialista explica que, por mais desagradável que possa parecer, isso significa ter de fazer algumas cedências em relação à Coreia do Norte, para convencer o país a adotar uma posição de maior abertura ao debate.

Essas cedências podem passar por uma redução dos exercícios militares conduzidos pelos Estados Unidos em torno da Coreia do Norte.

“Em vez desta conversa imaginaria sobre cenários de guerra, é preciso um debate entre as duas partes “, afirma Jeffrey Lewis. “Apenas a via diplomática permitirá abrandar o programa nuclear norte-coreano. E isso vai exigir muitas conversações”.



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