Atualmente, a esfera pública da política e da comunicação social prende-nos ao alucinante presente instantâneo, sufocando-nos com infindáveis banalidades e trivialidades que não servem para nada.

Nesta última semana tive a oportunidade de visitar Auschwitz-Birkenau, onde se situam dois antigos campos de concentração nazi, entretanto transformados em museus, para os quais foram deportadas e assassinadas milhões de pessoas (sobretudo judeus, ciganos, polacos e prisioneiros de guerra). Os números são arrepiantes, a história é conhecida, amplamente estudada e contada em livros, documentários e filmes. Contudo, ao pisar aqueles sítios, transitar pelas várias salas e setores, tocar nas paredes, somos de facto confrontados com a materialidade do horror. Terríveis e indescritíveis atrocidades ocorreram há pouco mais de 70 anos. Não foi assim há tanto tempo. Faltam as palavras… Mesmo agora ao escrever estas linhas não consigo ultrapassar o incómodo em tentar expressar algo tão monstruosamente inqualificável e que foge por completo à racionalidade.

Todavia, apesar dessa extrema dificuldade, uma pergunta simples e óbvia assola-nos quase ininterruptamente à medida que se percorrem aqueles corredores: “como foi isto possível?” Não existem respostas fáceis para esta questão e, felizmente, os debates prosseguem suscitando novas análises mais elaboradas e, sobretudo, mais qualificadas. No campo científico, como no cultural e artístico, a memória continua a ser consolidada, completada ou questionada. Assim, apesar das reformulações teóricas e das abordagens distintas que cruzam argumentos e pontos de vista, a memória do que aconteceu mantém a sua fixidez num tempo e num espaço bem determinados. No entanto, essa fixidez ancorada num passado concreto não é, não pode ser, um dado adquirido, pelo contrário esta tem de ser recursivamente (re)construída no presente.

Já no campo da política, a memória está a transformar-se numa espécie de obstáculo indesejável e que, por isso, tende a ser adulterada ou até removida. Aliás, essa é uma das marcas da designada “pós-verdade”: destruir a fixidez da memória e torná-la em algo fluido, que pode ser facilmente manipulado conforme os interesses e as ocasiões do momento.

No corrente contexto político, onde reemergem diferentes populismos e diversas modalidades de nacionalismo (tanto à direita como à esquerda), as perguntas difíceis parecem ser esquecidas ou não serem devidamente formuladas. Quase tudo vai sendo ofuscado pela oportunidade do momento e pelo ganho instrumental do curto prazo. O tempo mediático comprime-se em ciclos vertiginosos de poucos dias, por vezes, de apenas algumas horas. Na verdade, a política e os meios de comunicação não conseguem (ou não desejam) produzir espaço para o tempo. Este é ocupado pela mediatização frenética que coloniza a esfera pública.

Neste sentido, não dar espaço à memória significa, simultaneamente, uma incapacidade em projetar futuro que vá para além da espuma dos dias e das horas. Atualmente, a esfera pública da política e da comunicação social prende-nos ao alucinante presente instantâneo, sufocando-nos com infindáveis banalidades e trivialidades que não servem para nada. Ou, dito de outro modo, só servem para o interesse particular de se tirar algum proveito fugaz da produção de um ou mais sound bites.

Por tudo isto, é importante que as perguntas difíceis não morram no esquecimento e que não nos furtemos de as formular repetidamente. Só assim será possível abrir espaço à memória e não desistir de fixar o fascismo e o seu contexto histórico. É preciso continuar a tentar compreender como foi possível aquilo ter acontecido, assim como insistir em questionar o modo e o processo pelos quais o fascismo vai (re)surgindo e espreitando nas sociedades atuais.

Nestes primeiros dias de agosto, em que o país ruma para o descanso merecido e se espreguiça nas areias finas das suas praias, não é, de certeza, sobre o fascismo que nos apetecerá pensar e conversar com familiares e amigos. Apetecerá desligar do quotidiano e das rotinas e saborear a doce liberdade de não fazer nada (ou de fazer pouco). Contudo, estes próximos dias de paragem – em que nos damos algum espaço para acalmar, relaxar e, quem sabe, refletir – podem representar uma circunstância privilegiada para fixar a memória de tempos obscuros e de resgatá-la para o aqui-e-agora que partilhamos enquanto contemporâneos. Não nos esquivemos à responsabilidade de fazer essa memória presente. Tenham umas boas férias!



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