FC Porto, Sporting e Benfica

Sérgio Conceição, Jorge Jesus e Rui Vitória, cada um com os seus problemas particulares, estão a comandar com competência os três clubes portugueses. O desporto nacional de fabricar vítimas em função dos resultados tem aqui pouco espaço desta vez

Há muitos anos que os três maiores clubes do futebol português não mantinham uma competição tão equilibrada e interessante. Isso ficou provado na semana que deixa o FC Porto com caminho aberto para o título de campeão, o Sporting como favorito para ganhar a Taça de Portugal (ao Aves) e o Benfica como o maior perdedor mas ainda espreitando a oportunidade de vencer a Liga.

É uma boa altura para fazer um ponto de situação dos acontecimentos desportivos desta época na perspetiva dos três grandes.

O FC PORTO não teve muita sorte na fase final da temporada. Para além das provas que perdeu apenas na marcação das grandes penalidades, ambas com o Sporting, inequivocamente há uma equipa com Danilo e Marega, poderosa, pressionante, goleadora, e uma outra, sem eles, com menos soluções, ainda para mais se aos grandes problemas se juntarem episodicamente outros, como foi o caso de Alex Teles, Brahimi, Corona e não só. O incansável Herrera desdobrou-se no meio campo, e disfarçou a ausência de Danilo tanto quanto possível, mas na frente não há alternativa a Marega como assistente do ponta-de-lança, seja ele Aboubakhar, que tem ido de mais a menos, ou Soares, outro bom avançado. Sérgio Conceição sentiu, portanto, muitas dificuldades neste trabalho extremamente difícil que lhe foi proposto de fazer uma equipa a partir dos jogadores sob contrato. Está a ter êxito e apresta-se para colocar um ponto final num longo jejum de títulos. Tem muito mérito e o FC Porto pode agora programar com calma um futuro que deve contar com Diogo Dalot, Sérgio Oliveira, José Sá e outros jovens de qualidade. De uma época para a outra, o desafio será ultrapassar o provável abandono de Casillas e de algum dos centrais, como Marcano e talvez até Diego Reyes. O FC Porto foi forte frente ao Benfica, teve sorte no golo de Herrera, por ter acontecido nos últimos minutos, e foi eliminado à tangente na Taça de Portugal. A poupança de Marega deve ser vista à luz da necessidade de gerir o jogador mais decisivo e de não correr riscos naquele que é o objetivo principal: ser campeão.

O SPORTING ganhou um líder nestes dias: Jorge Jesus. Convém que quem manda no Sporting perceba isso e não estrague o que está bem. A equipa é boa, combativa, profissional, tem dois jogadores tecnicamente espetaculares (Gelson Martins e Bruno Fernandes), outros dois com a personalidade e qualidade que faz a diferença (os ‘capitães’ Rui Patrício e William Carvalho) e vários outros que chegaram este ano e acrescentaram (Battaglia, Acuna, Piccini, Mathieu, Ristovski, Coentrão). A recuperação de Brian Ruiz e a importância de Bas Dost e Coates completam o núcleo. Precisa, apenas, de mais alternativas no ataque porque Montero e Doumbia não pertencem a este filme. Esta realidade impõe ponderação, maturidade e sentido de responsabilidade a quem dirige. Provavelmente o Sporting precisará de vender, como qualquer outro clube português, mas deve saber proteger o essencial para poder continuar a recuperação desportiva dos últimos anos, começada com Leonardo Jardim, prosseguida por Marco Silva e potenciada por Jorge Jesus, que teve de assumir mais responsabilidades das que são normais num treinador. Na verdade, como diz Jesus, o Sporting bateu-se bem em todas as frentes. Competiu com personalidade, mesmo na Europa, e só fraquejou naquele período das lesões em que perdeu pontos decisivos em Setúbal e Estoril. Não tivesse sido isso e a época poderia ser de sonho para o Sporting que, depois de ganhar a Taça da Liga e garantir a ida ao Jamor, sempre a custa do FC Porto, ainda dispõe da possibilidade, realista, de acabar segundo na Liga com a abertura de uma janela de oportunidade para a Liga dos Campeões. Mais do que isso é pouco provável.

O BENFICA não deveria ser ingrato para Rui Vitória, que está a ser crucificado pelas substituições que introduziu no jogo perdido com o FC Porto. E não há razão para isso, a não ser, talvez, na substituição direta de Rafa por Sálvio. Talvez que a equipa pudesse ter ganho com a deslocação de Rafa para outras zonas, porque estava, na verdade, a ser o jogador mais incómodo para o adversário. De qualquer forma, é preciso olhar para o que havia no banco e para quem estava em campo. O Benfica tinha no terreno um quarteto de criativos pesos-pluma: Rafa, Pizzi, Cervi e Zivkovic. Nos últimos momentos importava ganhar peso e, não tendo aparecido o golo, também cuidar do resultado (foi o que fez Sérgio Conceição em Alvalade com a entrada de Reyes para médio defensivo, e também perdeu, repararam?). São decisões normais no futebol. Às vezes sai bem, outras não, e calha a todos. De resto, Rui Vitória teve o mérito de inventar uma defesa, depois da saída de Ederson (Man, City), Nélson Semedo (Barcelona) e Lindelof (Man. United) e da entrada de Luisão na última etapa da carreira. Não era fácil e o treinador cumpriu com a prata da casa, limitado pelas possibilidades financeiras do clube. Lançou Rúben Dias, um central com o qual a seleção contará no futuro. Recuperou Jardel e André Almeida para o papel que tinham tido dois anos antes. Confiou em Bruno Varela, que tem qualidades. E, tal como Conceição e Jesus, o treinador do Benfica teve duas lesões complicadas de gerir – primeiro a de Krovinovic, que estava a ganhar estatuto de titular, e agora a de Jonas, no momento decisivo. Nada que deva fazer esquecer o mérito com que geriu a renovação e regressou à luta quando, a certa altura da temporada, tudo parecia perdido. O Benfica acabará sempre a época com um título: o da Supertaça. Se ficar em segundo lugar, podendo a partir daí aceder à Champions, o único ponto verdadeiramente negativo será a carreira europeia, que foi péssima qualquer que seja o ângulo de análise.




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