Extrema-direita pode regressar ao poder na Áustria

As eleições são no domingo e a extrema-direita eurocética está em segundo lugar nas sondagens. A vitória deverá ser, desta vez, dos democratas-cristãos, por troca com os social-democratas.

O Partido da Liberdade da Áustria (FPO) comunga com a Frente Nacional francesa a mesma ideologia nacionalista, xenófoba e liberal e a mesma perceção (instalada tanto no interior como no exterior do país) de que seguirá de derrota em derrota até à vitória final.

A Frente Nacional está ainda bem longe disso: foi atropelada pelo rolo compressor do novo partido de Emmanuel Macron – que venceu as eleições presidenciais francesas contra Marine Le Pen –, tem pouca exposição no parlamento e é uma inexistência nas regiões. Mas o FPO não está assim tão longe: conseguiu 40 deputados em 138 nas legislativas de 2013 (mais seis que nas de 2008); e por pouco (300 mil votos em cinco milhões) não elegeu o seu candidato, Norbert Hofer, nas presidenciais de dezembro do ano passado, que ainda assim ganhou a primeira volta destacado, com uma percentagem acima de 35%. Mais: entre junho de 2015 e maio de 2017, o partido liderado por Heinz-Christian Strache manteve-se sistematicamente à frente de todos os estudos de intenções de voto, só tendo sido ultrapassado pelo OVP, Partido Popular Austríaco (democrata-cristão e conservador liderado por Sebastian Kurz), muito recentemente. Mas, como realçam vários comentadores, essa alteração recente não é de modo algum uma garantia de que a extrema-direita eurocética não regresse ao poder.
A antecipação das eleições, que estavam marcadas para o próximo ano, deu-se precisamente por ‘culpa’ de Kurz, que foi eleito para o cargo de presidente do partido em maio passado, em substituição de Reinhold Mitterlehner. A sua ascensão no partido colocou-o em pé de igualdade com o chanceler Christian Kern, do Partido Social-Democrata da Áustria (SPO) – ambos tendo uma coligação que governa o país há mais de uma década. Sebastian Kurz, que fez parte do governo de coligação como ministro dos Negócios Estrangeiros (chegou ao cargo aos 27 anos), parece ter apostado na hora certa: o OVP lidera confortavelmente as sondagens (com 33,3% das intenções de voto), tendo deixado bem para trás o parceiro de coligação, que não vai além dos 24% de intenções de voto.
Em teoria, o próximo governo a sair das eleições de domingo pode ser praticamente igual ao que se prepara para deixar funções, apenas trocando a posição relativa entre o OVP e o SPO, ficando desta vez os democratas-cristãos a predominar sobre os social-democratas. O único fator a ‘estragar’ estas contas é que o FPO, apesar de já não liderar as sondagens, ainda está num confortável segundo lugar, com 26% das intenções de voto. De qualquer forma, uma ascensão do partido radical nacionalista ao governo seria precisamente um regresso e não uma estreia: o FPO fez parte de governos de coligação entre 1983 e 1986 (na altura era considerado de direita moderada) e entre 1999 e 2006.

Para os austríacos, o regresso da extrema-direita ao governo é, por isso, algo de normal – não havendo qualquer diabolização do partido (fundado por um nazi, membro das SS), como se passa desde há alguns anos, poucos, em Bruxelas, principalmente junto no seio da Comissão Europeia.

Rostos tapados, não

Aliás, há alguns temas que de algum modo são transversais à sociedade austríaca, genericamente aceites como razoáveis, que fora das suas fronteiras são considerados um arrepio. Um exemplo: há cerca de três meses – durante o governo de coligação de centro-direita – a Áustria tornou-se o oitavo país da Europa a proibir o uso público das indumentárias islâmicas tradicionais que tapam a cara das mulheres: a lei não menciona expressamente a proibição da burca (que cobre os olhos) ou do niqab (que os deixa à vista), mas o certo é que “quem nos espaços ou edifícios públicos cubra ou oculte o rosto com roupa ou outros objetos, de maneira que não seja reconhecível, comete uma infração”, punível com multa até 150 euros.

Para os analistas, o único verdadeiro entrave ao regresso da extrema-direita ao poder e a explicação do seu retrocesso nas sondagens é – para além da figura de estrela de Sebastian Kurz – o bom momento económico que o país atravessa, com um crescimento assinalável, que tem permitido a criação líquida de emprego e uma consequente diminuição da taxa de desemprego. Além disso, a agenda da coligação entretanto desfeita contemplava ainda a criação de um salário mínimo – considerada uma medida de âmbito social bem aceite por parte da população – e o reforço da luta contra a evasão fiscal.

De qualquer modo, e tomando-se como certo que não parece haver qualquer hipótese de existir uma maioria absoluta quer por parte dos social-democratas quer dos democratas-cristãos, só dias depois das eleições será possível perceber-se que tipo de coligação vai liderar o país.

A União Europeia e a Comissão Europeia em particular têm chamado repetidamente a atenção para os malefícios da concentração de votos em partidos eurocéticos – sejam eles das extremas esquerda ou direita, grupo onde se insere o FPO – mas o certo é que a extrema-direita tem conseguido resultados crescentemente auspiciosos, como ficou bem patente há poucas semanas na vizinha Alemanha, onde o ‘partido-irmão’ Alternativa para a Alemanha (AfD) conseguiu entrar pela primeira no parlamento como a terceira força mais votada.



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