Eleições francesas: um escrutínio ao estado da União

Domingo, toda a União Europeia estará suspensa nos resultados da primeira volta das presidenciais francesas. A acreditar nas sondagens, Le Pen e Macron voltam a encontrar-se quinze dias depois.

A França – país que liderou a política europeia durante dois séculos, entre a Revolução de 1789 e a queda do muro de Berlim em 1989 – habituou-se há muito a que as suas eleições presidenciais sejam bem mais que o mero escrutínio das vontades caseiras para os cinco anos seguintes. As presidenciais francesas foram sempre o barómetro de qualquer coisa. Dois exemplos: as de maio de 1981, que resultaram na primeira vitória do ‘amigo’ François Miterrand, permitiram avaliar a capacidade de os partidos socialistas europeus constituírem uma alternativa ao conservadorismo do pós-guerra, depois de terem decidido meter o socialismo na gaveta – o que quis dizer, na altura, que socialistas e comunistas cortavam, aparentemente em definitivo, o cordão umbilical que ainda os unia; as de abril de 2012 serviram para tomar o pulso à musculatura da extrema-direita, que dava os primeiros passos fora do armário em que tinha sido metida umas décadas antes.

Mas nunca como no próximo domingo umas presidenciais francesas são tão esperadas, tão decisivas e tão temidas, desta vez por todo um conjunto de 28 países agregados na União Europeia. Porque, ninguém é capaz de dizer o contrário, é a própria União Europeia e o conceito que se mantém por trás dela que vai a votos.

O Brexit mudou tudo. Uma vitória da extrema-direita de Marine Le Pen – o cenário mais temido por Bruxelas – resultará num referendo à presença da França na União Europeia e poderá significar mais uma sangria (se nesse referendo o ‘sim’ à saída ganhar) que colocará em causa a própria União. Uma União Europeia de 495 milhões de pessoas (a soma dos 28 países que ainda fazem parte do agregado) não é a mesma coisa que uma União Europeia de 375 milhões (o mesmo agregado sem o Reino Unido e sem a França). Uma vez decidida a saída do Reino Unido, se a França também saisse, a União Europeia passaria a ser a Alemanha mais 25, com os germânicos a serem cada vez mais preponderantes em cada uma das balanças de transacções correntes de todos os outros e a sua vontade prevaleceria sobre todo o edifício (já muito alto) da burocracia comum.

Sondagens em todos os sentidos
A acreditar nas sondagens – o que se tem revelado um erro desnecessário – o fantasma da eleição de Marine Le Pen está razoavelmente posto de lado. Mas se a passagem da Frente Nacional parece certa – mas pode não acontecer – e a eventualidade de o candidato independente Emmanuel Macron ser o seu adversário a 7 de maio, na segunda volta, as contas têm vindo a baralhar-se nos últimos tempos. Desde logo porque Jean-Luc Mélenchon, o candidato da esquerda à esquerda do PS francês, que repete a presença de 2012, tem vindo a subir nas intenções de voto, numa altura em que Macron parece ter atingido o seu máximo.

Mas como a Europa não vive só de política, o lado da economia também avança as suas previsões tanto em termos de vitórias, como principalmente da avaliação dos riscos. Um relatório do Departamento de Research da consultora XTB sobre as eleições em França a que o Jornal Económico teve acesso, permite chegar a conclusões interessantes: o cenário de menor risco para os mercados (onde entram os principais índices bolsistas da União Europeia, mas também a relação cambista entre o euro e o dólar) seria uma passagem de Le Pen e de Macron à segunda volta, com o independente a conseguir uma margem de mais de cinco pontos percentuais; a posição contrária, ou seja, Le Pen a passar na frente à segunda volta, “deixaria os mercados nervosos”, diz o relatório; mas, para os mercados, o pior cenário, o de maior risco, seria um confronto na segunda volta entre Le Pen e Mélenchon – “este é o cenário de pesadelo: uma escolha entre a catástrofe económica e o risco de Frexit, potencialmente muito negativo”.

Enquanto os mercados tentam meter-se aonde não são chamados e as cúpulas da União Europeia roem o que ainda lhes restar das unhas, a grande incógnita continua a ser os indecisos. As sondagens mostram que este ano os indecisos são muitos mais que o que é normal em França – e isso pode fazer toda a diferença, transformando as sondagens num exercício meramente indicativo mas pouco eficaz e emprestado à noite de domingo uma envolvente de mistério e imprevisibilidade que já não se registava há muito. Duas semanas depois, há mais.