Num momento de novos alinhamentos, é determinante não esquecer a evolução dos laços históricos, os interesses convergentes e a possibilidade de solucionar divergências por negociação. Em português.

Num momento em que a diplomacia voltou às páginas dos jornais e em que os conflitos e tensões ganham maior expressão, vale a pena pensar no papel desempenhado pelos países de língua portuguesa. Enquanto Estados independentes, mas também como membros de organizações internacionais, têm assumido algum protagonismo que, por vezes, tem passado despercebido aos olhos dos media.

Recentemente têm surgido alguns contributos no sentido de projetar esse olhar sobre a diplomacia dos países de língua portuguesa. Entre esses testemunhos está o recente livro “Os Conflitos em África e a Experiência de Angola na Sua Resolução”, da autoria de Mário Augusto, com a chancela da Guerra e Paz. Trata-se de um testemunho interessante e elucidativo de um diplomata, portanto, de alguém que vive intrinsecamente este mundo das relações e das instituições internacionais e que ainda está marcado pelo processo de independência do seu país.

O livro foca-se no caso africano e na participação de Angola na resolução de conflitos, indo para além desse tema. Constitui um instrumento para se descobrirem as organizações internacionais a operar em África e uma maneira de aceder, embora de forma sucinta, ao que tem sido a experiência de resolução de conflitos, num continente mais associado à guerra do que à construção da paz. Trata-se de um contributo relevante para se pensar essa diplomacia em português, que, tendo vários protagonistas, tendencialmente está longe dos olhares mediáticos.

Os países de língua portuguesa estão presentes em diversas organizações internacionais de carácter global e regional. Participam em organizações fundamentadas na partilha da língua portuguesa e de um passado comuns. Refiro-me especificamente à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e ao Fórum Macau. Este último tem uma estrutura deveras interessante, pois para além da Secretária-Geral, indicada pela República Popular da China, tem também três Secretários-Gerais adjuntos, nomeados pelos países de língua portuguesa, pela República Popular da China e pela Região Administrativa Especial de Macau.

Apesar da iniciativa ser de um país não lusófono, a China, a verdade é que se trata de uma organização internacional criada com a missão de consolidar o intercâmbio económico e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, recorrendo a Macau enquanto plataforma de ligação entre estes Estados. É, pois, mais um instrumento de diplomacia, em que o português é veículo de negociação.

Num momento de novos alinhamentos, é determinante não esquecer a evolução dos laços históricos, os interesses convergentes e a possibilidade de solucionar divergências por negociação. Nesse âmbito, a diplomacia em português é apenas mais uma num mundo em transformação, mas não deixa de ser um elemento importante a ter em conta quando estudamos fenómenos globais como a Rota da Seda, ou acontecimentos regionais como os conflitos nas fronteiras africanas.




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