De uma extrema à outra: os 5 principais candidatos à presidencia francesa

A polémica filha do fundador da Frente Nacional, o centrista Emmanuel Macron, o fustigado François Fillon, o socialista Benoît Hamon e o comunista Jean-Luc Mélenchon. Leia aqui os perfis dos cinco principais candidatos ao Palácio do Eliseu.

Emmanuel Macron

Aos 39 anos, diz que não é de direita nem de esquerda – o que é um sintoma de direita – que não é um liberal no sentido económico da palavra nem um conservador no sentido sociológico do termo. Um híbrido, portanto, que tem feito uma carreira fulgurante enquanto candidato às presidenciais francesas.

Desde que assumiu a sua vontade de herdar o lugar de François Hollande que a sua candidatura deixou para trás a do socialista Benoît Hamon e depois até a do republicano François Fillon. A passagem à segunda volta está garantida, segundo as sondagens, o que lhe tem permitido não só capitalizar os votos anti-Le Pen, como ter fundadas esperanças em ser de facto o novo presidente de França. Ex-ministro da Economia de um governo do primeiro-ministro Manuel Valls, Macron não se livra de duas acusações graves: a de traição aos socialistas franceses – que se queixam de uma espécie de concorrênca desleal face a Hamon; e a de ser a voz (ou mais propriamente o testa de ferro) da banca e das grandes empresas.

Esforçando-se por esbater essa condição, Macron demitiu-se de todos os cargos profissionais que ocupava quando se tornou candidato às presidenciais, insistindo em ter sido o único a fazê-lo. Mas não parece ter ganho muito com isso, dado que os restantes candidatos continuam a rotulá-lo com alguma facilidade como o homem da economia de mercado. Verdade ou não, o certo é que a chanceler alemã Angela Merkel decidiu, há cerca de um mês, recebê-lo – algo que apenas tinha feito com François Fillon, mas antes de ele ter caído em desgraça – dando-se assim ao luxo de expor à evidência qual é o candidato preferido de Berlim.

Mas a visita pode ter sido contra-producente: tanto à esquerda como à (extrema) direita, Macron foi rapidamente acusado de ter ido ao ‘beija-mão’ a Berlim mesmo antes de ser presidente, o que, para os críticos, é prova de que, com ele, a França continuará submissa à Alemanha. Nada disso tem sido suficiente para parar o crescimento das intenções de voto na sua candidatura no próximo domingo. E também no domingo de 7 de Maio.

Marine Le Pen

Uma parte de França respirou de alívio na noite de 22 de Abril de 2012, quando a candidata da Frente Nacional às eleições presidenciais, Marine Le Pen, ficou fora da segunda volta – que, a 6 de maio, seria ganha por François Hollande e perdida por Nicolas Sarkozy. Mas a filha do fundador do partido de extrema-direita francesa, Jean-Marie, contabilizou 18% dos votos (ficou em terceiro lugar) e, mais importante ainda, ‘ganhou’ um passe para as eleições de 2017. A sua entrada na corrida presidencial foi fulgurante: todas as sondagens lhe davam a vitória na primeira volta e algumas até mesmo na segunda. Mas, de então para cá, a ‘onda’ foi diminuindo e Le Pen tem de manter tudo em aberto – até a hipótese de voltar a falhar a segunda volta, o que constituiria uma pesada derrota tanto para si como para o seu partido.

Marine pouco tem alterado o discurso com que se apresentou aos franceses em 2012. Mas tem agora a seu favor o Brexit: a saída dos britânicos da União Europeia, representa, como a candidata da Frente Nacional não se cansa de repetir, a coragem e a ‘insubserviência’ que os franceses têm obrigação de repetir. Neste quadro, se Le Pen ganhar, a Europa não só entrará em pânico, como parará por muitos meses, à espera de ver para que lado cai o referendo que Marine quer fazer avançar sobre a continuação dos gauleses no seio da União Europeia.

Em termos económicos, as coisas também lhe correm bem: nada do que tem dito em roda da economia de cariz nacionalista é propriamente novo, mas desde que o presidente norte-americano Donald Trump introduziu um discurso semelhante na Casa Branca, que os franceses passaram ao ouvi-la com mais atenção. Entretanto, se se der o caso de Le Pen conseguir mesmo ascender à segunda volta, os analistas – mesmo os que estão certos da sua derrota – antevêem que a Frente Nacional acabará mesmo, de derrota em derrota, por vencer as presidenciais, possivelmente já em 2022. Mas, aos 48 anos Marine arrisca-se a que 2022 já seja longe demais: a concorrência, no partido e na família, aperta e é possível que o partido queira renovar-se.

François Fillon

Em janeiro de 2013, François Fillon parecia ser o único francês preocupado com as eleções presidenciais do próximo domingo: anunciou a sua intenção de concorrer à cadeira que François Hollande ocupava há escassos sete meses, depois de derrotar o seu companheiro político Nicolas Sarkozy. Esta decisão tão prematura tinha tudo a ver com o seu próprio partidos, os Republicanos: Fillon, primeiro-ministro de Sarkozy entre maio de 2007 e maio de 2012, queria deixar de ser o seu número dois. Salkozy não se deixou convencer, e os Republicanos tiveram de organizar umas primárias para decidirem quem iriam candidatar às presidenciais.

Para surpresa de muitos, Sarkozy, o fundador do partido, saiu derrotado, e François Fillon – um conservador moderado de 63 anos com algumas posições muito controversas (foi contra a despenalização da homossexualidade, a favor do colonislismo francês e contra o Tratado de Maastricht) – foi desde logo posicionado como o único candidato a conseguir derrotar Marine Le Pen (por muito que as suas deias face aos imigrantes, por exemplo, sejam em larga medida coincidentes). De então para cá, foi sempre a descer. Tudo por causa de uma denúncia segundo a qual Fillon teria, enquanto político, colocado a sua família em posições laborais de relevo. Marine Le Pen rapidamente ‘cavalgou’ estas denúncias – que Fillon não teve por onde desmentir – tranformando o candidato dos Republicanos do arquétipo do político de carreira posicionado no âmago da amálgama do poder onde todos os interesses pessoais e de grupo são permitidos.

Resultado: a capacidade de Fillon derrotar Le Pen esboroou-se no espaço de semanas, o que fez com que, inclusivamente, muitos Republicanos lhe retirassem publicamente o seu apoio. Fillon foi fortemente pressionado a abandonar a corrida às presidenciais – nomeadamente para não ‘desperdiçar’ votos anti-Frenta Nacional – mas Fillon quis chegar até 23 de abril. Seja como for, e ao contrário do que diziam as primeiras sondagens, muito dificilmente chegará a 7 de maio – deitando por terra uma estratégia de ‘assalto’ ap Eliseu que começou há mais de quatro anos.

Jean-Luc Mélenchon

Nascido em Marrocos há 66 anos, o candidato da Frente de Esquerda – à esquerda do PS francês – tem vindo a reforçar a sua posição nas sondagens e a aproximar-se da possibilidade de passar à segunda volta das eleições. A fasquia mínima a partir da qual a sua candidatura pode considerar-se um sucesso são os 11% que obeteve nas presidenciais de 2012.

Trotskista, ex-dirigente de Maio de 68 e professor de Filosofia, Mélenchon tem insistido num discurso cada vez mais alinhado com a chamada ‘nova esquerda europeia’, que é uma mistura entre a agenda tradicional – a defesa de um Estado protector e investidor (o avesso do Estado liberal), o primado do sindicalismo, a defesa dos direitos civis, etc. – e um conjunto de posicionamentos que incluem a permanência na União Europeia num quadro mais equilibrado que o actual. Mélenchon tem sido, por outro lado, e no que compara com os principais candidatos, disruptivo: quer fundar a quinta República, fazer regressar a França à posição de relevo que tinha na União Europeia em 1957 – e que se estendeu por pelo menos duas décadas – e voltar a ser uma voz ouvida globalmente em todos os palcos políticos.

Com um discurso jovial e bem-humorado mas também preciso e difícil de apanhar em contradição, Mélenchon tem capitalizado algum do descontentamento que grassa nas hostes do Partido Socialista, tendo conseguido agregar em seu torno os socialistas mais à esquerda, descontentes tanto com a presidência de François Hollande, como com a deriva liberal de uma parte substancial da sua liderança. Mélenchon tem ainda sido protagonista do lançamento de algumas ideias novas – onde avulta a vontade de, se ganhar, promover uma conferência europeia para discutir as fronteiras do continente. Nos debates conjuntos entre os principais candidatos Mélenchon tem ainda mostrado ser o mais hábil em exasperar Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita, e em expor as idiossincrasias do seu discurso. Apesar de tudo, o ex-ministro da Educação de Lionel Jospin não deverá passar à segunda volta; e daqui por cinco anos, com mais de 70, já não deverá repetir a candidatura.

Benoît Hamon

Quando toda a gente estava à espera que o candidato do PS francês às presidenciais fosse o então primeiro-ministro Manuel Valls, foi com enorme surpresa que a condição de concorrente à herança de François Hollande recaiu sobre o ex-ministro da Economia Social e ex-ministro da Educação Benoît Hamon, de 49 anos. A surpresa serviu, na altura, para mostrar até que ponto o PS francês está a passar por um período de profunda desordem interna e de falta de estratégia – o que não é uma característica exclusiva: os socialistas gregos e espanhóis estão também eles a fazer a sua própria travessia do deserto, com maiores ou menores desastres eleitorais.

O potencial insucesso da candidatura de Hamon foi exponencialmente reforçado pela decisão de Emmanuel Macron se candidatar como independente – ficando o eleitorado socisliata disperso entre ambos. Com uma presença razoavelmente apagada nos debates a cinco – confirmada pela percepção geral de que ficou sempre àquem dos restantes – a candidatura de Hamon tem vindo a perder gás, e já ninguém se admirará se o PS obtiver uma derrota histórica no próximo domingo. Para os analistas que gostam de complicar, o PS francês continua refém do afastamento de Dominique Strauss-Kahn, ex-ministro e ex-director do FMI que teve de se afastar das presidenciais de 2012 devido à sucessão de escândalos sexuais em que se viu envolvido.

Para os menos complicados, a anunciada derrota dos socialistas franceses dar-se-ia quem quer que fosse o candidato, uma vez que a prestação de Hollande foi uma enorme decepção – tanto interna como externamente, sendo de recordar que em 2012 o ainda presidente francês foi aclamado como o líder da nova esquerda europeia, o que acabou por revelar-se excessivo. Só para complicar, Hamon acabou por cair numa série de contradições, a mais avultada das quais teve a ver com a defesa de uma espécie de salário universal para todos os franceses, que de alguma forma pudesse garantir a sua sustentatibilidade sem mais preocupações, defesa essa que teve de recuar face à evidência do irrealismo da proposta. A extensão do desastre da candidatura só será conhecida na noite de domingo.



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