De vez enquando comenta-se qual será o catalizador para uma correcção dos mercados, o tal 'cisne negro', o acontecimento que não se espera.

A recente escalada de tensão entre a Coreia do Norte e o Japão trouxe de volta aos mercados o risco de geopolítico, pelo menos durante 16 horas. Este foi o tempo entre o disparo do míssil que sobrevoou o Japão e a abertura das bolsas americanas.

Nos últimos nove anos os mercados valorizaram-se de forma substancial, criando o “efeito riqueza” que permite a quem tenha aplicações financeiras sentir-se mais confiante para investir e consumir. É nesta valorização de activos, que parte da banca sustenta o crédito que é dado às famílias e empresas. Este é de facto um período único, uma vez que quer os atentados terroristas, quer a perspectiva de guerra ou a instabilidade geopolítica põem em causa a evolução dos preços dos activos financeiros. De vez enquando comenta-se qual será o catalizador para uma correcção dos mercados, o tal cisne negro, o acontecimento que não se espera.

Apesar de vivermos uma incerteza diária e cada vez mais permanente, desde o emprego à segurança social, o facto é que continuamos a dar importância à percepção de segurança. O conflito que se desenrola com a Coreia do Norte está longe de se resolver de forma pacífica e pode abalar este conceito de segurança. Existe a convicção de que, de uma forma ou de outra, a solução sairá do recurso à diplomacia. Caso não seja assim, os bancos centrais estarão lá para suportar os mercados e dar liquidez ao sistema financeiro.

A resiliência demonstrada apoia-se na alteração do perfil de investimentos verificada nos últimos anos. Cada vez existe mais dinheiro a ser aplicado em ‘ETF’ e fundos de gestão passiva, que seguem índices, sendo vendidos como estratégias de longo prazo e, logo, menos sujeitos a resgates diários. No entanto, a solução para o actual conflito não é fácil. Quer o líder da Coreia do Norte, quer o presidente dos Estados Unidos da América precisam deste conflito para manterem ou recuperarem popularidade e, em última análise, o poder.

Não se pense que Portugal está imune. Situações de incerteza mundial podem ser o cisne negro da nossa economia, que está a ser alimentada por uma dinâmica externa ao nível do turismo e da venda de imobiliário. Neste contexto, a ausência de reformas estruturais e a redução do défice à custa do aumento da receita é uma situação preocupante. A economia portuguesa continua vulnerável a qualquer choque externo, dependente das exportações, da captação de investimento estrangeiro e da emissão de dívida, e com um sistema financeiro ainda debilitado. O aumento da despesa acima dos ganhos de produtividade revelar-se-á um erro histórico, uma vez qus os ajustamentos devem ser realizados nas expansões económicas.

Os cisnes negros raramente são considerados tanto por políticos como por investidores, que encontram na conjuntura externa a desculpa perfeita para a manutenção do poder. Foi assim na crise financeira, sê-lo-á numa crise geopolítica.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.



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