O coworking de cá – de Portugal e de todos os que nos visitam – ou de como estes espaços e as suas comunidades podem contribuir positivamente para o combate ao desemprego jovem.

Na última edição do Orçamento Participativo de Portugal, em Lisboa, fui desafiado a apresentar uma ideia para o País. Como sempre, pareceu-me tarefa fácil. Afinal, todos temos ideias geniais, todos os dias, mas ideias leva-as o vento, como diz o provérbio. Havia que subir à famosa “palete” do Ignite Portugal.

Pensei em dinamitar Almaraz; acabar com os “piscas” nos carros comercializados em Portugal que, como todos sabemos, dão cabo das baterias; instalar piscinas de bolas em cada rotunda do País (uma ideia antiga de que não desistirei); ou propor um curso para formar portugueses como mediadores globais. Onde houvesse problemas para resolver, enviava-se um português para desenrascar aquilo tudo (para os EUA, nesta altura, teria de se enviar uma equipa maior); e muitas outras ideias, mais ou menos – por vezes muito menos – exequíveis.

Precisamos rapidamente de ideias para combater o flagelo do desemprego entre os mais jovens. Decidi que a minha ideia seria dedicada aos mais jovens, com menos de 35 anos, mas sem grande convicção porque hoje todos somos jovens ad eternum. Sei também que uma rede de contactos e a integração numa comunidade activa são elementos fundamentais para que se entre ou regresse ao maldito mercado de trabalho. Não sendo razões exclusivas, a falta de uma rede profissional e de um sentimento de pertença a uma comunidade são factores que estão amiúde na base do prolongar de uma etapa de desemprego.

Os espaços de coworking são espaços de trabalho partilhados. A descrição não é errada, é apenas absolutamente insuficiente. Estes espaços vão muito para além de uma ideia de trabalho e até de comunidade. Mas vamos por partes, como diz o Estripador. Quanto ao trabalho, convém lembrar que temos gente que usa os espaços de coworking “apenas” como programa de networking e não para aí desenvolverem a sua actividade principal; outros dedicam-se a actividades paralelas, o hobby que talvez venha a dar uma nova startup; e outros até passam pelo espaço de coworking porque aqui encontram a “família” que lhes falta. O que todos têm em comum é uma certa atitude resiliente.

A palavra comunidade (a par da colaboração, que ficará para outro artigo) é das mais utilizadas para descrever os espaços de coworking. Confesso que não sou fã do romantismo associado ao termo. Não é de paz e amor ou de um novo “flower power” que se trata. Diria mesmo que o que melhor descreve o sentido de comunidade dos [bons] espaços de coworking é exactamente a liberdade de se optar por não participar dessa comunidade. “Livres, mas juntos” (“Libres ensemble” no original) como diz o excelente slogan da Mutinerie (Paris).

Uma descrição adequada destes espaços tem, por isso, de conter o termo diversidade, em todas as suas dimensões. Posto de outra forma e parafraseando Alex Hillman, os espaços de coworking não incubam negócios, incubam pessoas. É bonito e é verdade.

Voltemos ao CÁWORK* e ao que me levou a subir à palete. Se temos um vale-incubação, um passaporte para o empreendedorismo e vários outros meritórios apoios aos negócios e às omnipresentes startups, é tempo de apoiar também os que de modo independente e freelancer se têm de adaptar a estes tempos de precariedade, incerteza e flexibilidade. O movimento de Coworking é, a um tempo, reacção e, a outro, consequência destes tempos que atravessamos. Causa e efeito sob o mesmo tecto, no fundo.

O CÁWORK é assim a proposta de um vale-coworking que qualquer desempregado sub-35 pode usar durante um determinado período (propus um mês, mas a proposta pode e deve ser revista) numa rede de espaços de coworking nacionais, a constituir.
A proposta está já listada na plataforma oficial do Orçamento Participativo de Portugal e estará disponível para votação de 1 de Junho a 15 de Setembro. Assim o CÁWORK chegue ao Dia da Criança…

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

 

* CÁWORK é ainda um exercício fonético com a forma que ouvi nos últimos 7 anos para dizer Cowork.



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