CEO de grupo turístico UIP diz que “a TAP abandonou o Algarve”

Carlos Leal, CEO da empresa que em Portugal controla o emblemático Pine Cliffs e outros projetos turístico-imobiliários do grupo IFA, tem uma posição muito crítica face à estratégia da companhia aérea nacional para o setor, nomeadamente para a região do Algarve.

O CEO do Grupo UIP – United Investments Portugal, detido pelo grupo de capitais do Koweit IFA Hotels & Resorts, queixa-se da falta de apoio da linha aérea da TAP para o turismo no Algarve.

Em entrevista ao Jornal Económico, Carlos Leal, responsável pelo grupo que tem cerca de 280 milhões de euros de investimentos previstos para Portugal, diz falta visão estratégica à transportadora aérea.

“A TAP abandonou o Algarve”, afirma.

Como vê a atual conjuntura do setor do turismo em Portugal?
Vivemos, estamos a viver na euforia. É um bom momento, que tem de ser aproveitado e trabalhado. Este bom momento tem dependido muito de fenómenos macro, como o impacto da Primavera Árabe, os vistos golden, mas temos de criar condições para dar sustentabilidade ao bom momento. E no meu entender, não estamos a dar essas condições. Vou-lhe dar um exemplo, que passa pela falta de apoio da linha aérea da TAP para o turismo no Algarve.

A que se deve essa crítica?
O aeroporto do Porto tinha há poucos anos três milhões de passageiros por ano. No ano passado, teve três vezes mais, porque passou a haver voos diretos da TAP entre Lisboa e o Porto. Neste momento, há um voo de hora a hora entre Lisboa e o Porto. Para o Algarve, para o aeroporto de Faro, há três voos por dia a partir de Lisboa, quatro no Verão, deixando os empresários do turismo no Algarve muito dependentes de charters e das companhias aéreas low-cost. Isto quer dizer que falta visão estratégica da TAP para o Algarve. Na minha opinião, a TAP abandonou o Algarve. Outro exemplo: a TAP parou os voos de Londres para Faro, enquanto manteve os voos de Londres para o Porto e para o Funchal. No aeroporto de Faro, estamos completamente dependentes das low-cost e dos charters.

Qual devia ser a prática da TAP?
A TAP devia ter uma visão mais global. Não devia analisar apenas se a rota tem lucro ou não, mas o que é que essa rota pode trazer de benefício económico ao País, com os impactos nos restaurantes, no golfe, no aluguer de automóveis. Esta questão tem de ser vista na óptica macroeconómica.

Qual a sua opinião sobre o novo aeroporto de Lisboa?
O aeroporto de Lisboa é um absurdo histórico no que respeita ao local onde está. O aeroporto já está todo dentro da cidade. Entendendo isso, é preciso dizer que a concretização de uma solução tem as suas limitações. O que é necessário é estudar os diversos case studies que existem sobre esta matéria e não inventar a roda. Penso que o atual aeroporto de Lisboa devia ficar limitado aos voos domésticos. Os outros voos terão de ser suportados por outra infraestrutura. O Montijo, para mim, faz sentido, até porque não é longe de Lisboa, da região Oeste, da Figueira da Foz, e está mais perto do Alentejo, que é uma pérola que está ainda para ser explorada, entre Évora e a costa alentejana, por exemplo, e do Algarve. Não sou nem um financeiro, nem um técnico, mas parece-me que o Montijo é capaz de ser o local mais sensato. Agora, sei que o novo aeroporto tem de ser num sítio qualquer, mas fora de Lisboa.

Concorda com a ‘explosão’ de rotas que passaram a ligar Lisboa ao resto do Mundo?
Mais do que novos destinos, penso importante captar mercados emissores de turistas em ascensão, como a China, o Japão, as Filipinas e a Tailândia, por exemplo. Mais que isso, continuo a questionar a opção da TAP em relação ao Brasil. Há hoje em dia 14 voos diários da TAP para o Brasil e nem todos vão cheios. As taxas de ocupação não estão no máximo, pelo que defendo que a TAP devia voar para menos destinos no Brasil. Já o reforço para os Estados Unidos parece-me bem porque é um mercado muito forte e com muito potencial, com destaque para Nova Iorque, Miami e Boston.



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