As Novas Aventuras de Robinson Crusoe: A pena afiada de Defoe

Consta que só a Bíblia terá sido traduzida para mais línguas do que “Robinson Crusoe”, o livro sobre as aventuras de um náufrago que viveu durante 28 anos numa ilha deserta ao largo da América, presumivelmente no arquipélago Juan Fernández, no Pacífico, a pouco mais de 600 quilómetros do Chile.

Escrito por Daniel Foe (que terá acrescentado o “De” por uma questão de estatuto social) quando já estava perto dos 60 anos e parcialmente inspirado na vida do marinheiro escocês Alexander Selkirk, o livro, publicado em 1719 e cujo título original é “The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, of York, Mariner: Who lived Eight and Twenty Years, all alone in an un-inhabited Island on the Coast of America, near the Mouth of the Great River of Oroonoque; Having been cast on Shore by Shipwreck, wherein all the Men perished but himself. With An Account how he was at last as strangely deliver’d by Pyrates”, foi um sucesso imediato, não só no Reino Unido, mas também na Europa continental. O seu modelo narrativo é aquilo que se pode considerar como puro ouro em ficção, algo de inspiração bíblica e que ainda hoje é usado com sucesso: transgressão (a rebeldia que o leva a sair de casa dos pais); punição (o naufrágio); arrependimento (as penosas lições do isolamento); redenção (o regresso a casa).

Menos conhecida será a continuação das aventuras do intrépido comerciante após deixar a ilha. “As Novas Aventuras de Robinson Crusoe”, publicadas poucos meses depois do seu famoso antecessor, conhecem agora, quase três séculos depois, edição portuguesa pela E-Primatur.

Estas novas aventuras de Crusoe baseiam-se de forma lata nos diários de viagem que detalham a missão britânica que, entre 1693 e 1695, seguiu de Moscovo para Pequim. Misturando factos e ficção, Daniel Defoe, no seu melhor estilo e sempre com a pena afiada para a crítica social – ainda que alguns termos e ideias nos deixem hoje algo desconfortáveis, sobretudo quando se trata de “selvagens”, “bárbaros” e “pagãos” –, relata as aventuras do seu herói numa última visita à ilha bem como em viagens por Madagáscar, China, Sudoeste Asiático e Sibéria.

Misto de romance de aventuras, relato jornalístico, crítica social e ficção, esta sequela é também o testemunho da enorme facilidade de escrita de Daniel Defoe, considerado um dos maiores nomes do jornalismo britânico do século XVIII, juntamente com Jonathan Swift (autor de “As Viagens de Gulliver”), e um dos maiores nomes da literatura universal.

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante

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