As famílias portuguesas perderam a cabeça?

A concessão de crédito cresce a dois dígitos e a taxa de poupança está em mínimos históricos. Mas há três razões para pensar que estes números não contam a história toda.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) surpreendeu-nos esta semana com uma notícia insólita: o indicador de confiança das famílias atingiu em Fevereiro o valor mais alto desde 2000. Claro que uma andorinha não faz a Primavera, mas não é preciso procurar muito para encontrar, aqui e ali, muitos outros sinais a confirmar o diagnóstico. Seja porque o crédito bancário cresce a um nível recorde, seja porque a taxa de poupança atinge mínimos históricos, parece cada vez mais óbvio para todos que algo se passa com as famílias portuguesas.

A confiança, em si, não é um problema. O problema surge quando o otimismo se desliga da realidade, acabando por conduzir a comportamentos arriscados ou compras imprudentes. E, no caso de Portugal, é difícil encontrar uma justificação sólida para tanto otimismo: o desemprego está a cair, mas continua acima dos 10%, as perspectivas de crescimento económico não são famosas e o país carrega uma dívida às costas que pesa mais de 100% do PIB nacional. Será que os portugueses vivem numa realidade paralela?

Talvez não. Apesar de o crédito, a confiança e a poupança estarem mesmo a bater recordes, a leitura destes dados não é tão simples quanto parece. E vale a pena olhar com atenção para os números. Um exame mais minucioso mostra como muitos destes alertas podem não passar de ilusões de óptica.

1. Crédito cresce a dois dígitos
Este é dos indicadores que mais alarme têm gerado. Desde o início de 2014 que os novos créditos concedidos às famílias têm crescido a níveis recorde, e em Dezembro de 2016 a taxa de variação homóloga rondava os 15%. O facto de o Banco de Portugal divulgar estes dados numa base mensal só reforça a sua importância: todos os meses há novas notícias a dar conta do regresso em força do despesismo das famílias.

Apesar de os números serem importantes, convém pôr as taxas de variação em perspectiva. É que o crescimento acelerado que se vê nos números atuais vem na sequência de quatro anos de reduções profundas e quase ininterruptas, que atiraram os volumes de crédito para níveis baixíssimos. Em meados de 2012, por exemplo, o crédito chegou a recuar mais de 40% face ao período homólogo. Com este pano de fundo, era quase inevitável assistirmos agora a crescimentos robustos.

Olhar para o nível de novos créditos – isto é, os montantes efetivamente concedidos, medidos em milhões de euros, e não para as correspondentes taxas de variação, medidas em percentagem – é uma forma de pôr em evidência este efeito. De facto, o setor bancário tem vindo a conceder pouco menos de 1000 milhões de euros de empréstimos às famílias no último ano. Isto é mais 15% do que os montantes do período homólogo, mas é bem menos de metade daquilo que era a norma antes da crise. O quadro comparativo (ver imagem) mostra bem a diferença que faz olhar para o crédito através deste prisma.

2. Taxa de poupança em mínimos
Quanto é que as famílias poupam ao final do mês? Segundo os dados das Contas Nacionais, publicados pelo INE, a taxa de poupança caiu de 9% do rendimento disponível, em 2009, para uns escassos 3,5%, em 2016. A descida é inegável e impressionante. Mas, no contexto do debate acerca da situação financeira das famílias, ela encaixa-se bem na caracterização que o economista David Romer fez de algumas estatísticas económicas: é um indicador extremamente útil, desde que não se cometa o erro de pensar muito sobre como é que ele é calculado.
E o cálculo, por estranho que pareça, é menos óbvio do que se supõe. Entre outras opções exóticas, a taxa de poupança do INE não leva em conta certas despesas, o que faz com que alguns gastos específicos (como compra de habitação própria, por exemplo) pura e simplesmente não afetem o seu valor final. Estas opções têm um fundamento técnico rigoroso, mas acabam, na prática, por acarretar uma implicação desagradável: é que aquilo que as famílias conseguem obter no final do mês para pagar as suas dívidas (ou constituir depósitos) não corresponde exactamente à taxa de poupança do INE.

Para ultrapassar este problema podemos olhar para o stock total de activos e passivos das famílias. Vista deste ângulo, a história parece bastante diferente. Por um lado, a dívida total está a cair a um ritmo mais ou menos constante desde 2013. Por outro, a sua posição financeira líquida (soma dos activos menos passivos) está hoje em máximos históricos, a orbitar em torno dos 160% do rendimento disponível. A melhoria progressiva da situação patrimonial das famílias dá-se ao mesmo tempo que a taxa de poupança cai a pique – em parte (mas não só) porque esta última é um mau indicador para avaliar a evolução da primeira.

3. Confiança em máximos
Os inquéritos de conjuntura que mostram a confiança das famílias em máximos de 17 anos são o maior quebra cabeças. Como explicar este optimismo, que é reportado ao INE pelos próprios inquiridos?

A Comissão Europeia pode ter conseguido encaixar as partes do puzzle. Numa caixa publicada no último boletim de previsões trimestrais («A ‘new modesty’? Level shifts in survey data and the decreasing trend of ‘normal’ growth») a Comissão dá conta de um fenómeno curioso: os indicadores qualitativos (como é o caso dos indicadores de confiança) parecem estar cada vez mais ‘divorciados’ dos indicadores quantitativos, como PIB ou consumo. O otimismo está lá – mas teima em não influenciar os comportamentos.

A hipótese avançada pela Comissão é que os consumidores reviram em baixa as suas expectativas depois da crise económica. E ao ‘baixarem a fasquia’ daquilo que são as suas aspirações, hoje reportam como ‘optimismo’ um conjunto de intenções de despesa que no passado seriam consideradas pouco mais do que modestas. A Comissão não fala especificamente no caso de Portugal, mas a suposição assenta que nem uma luva à economia nacional, onde os índices de confiança estão em máximos mas as despesas de consumo, medidas pelo Banco de Portugal (ver gráfico), estão perfeitamente em linha com a média histórica registada durante os períodos de expansão.

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