A entrevista devia ser lida por todos os portugueses. E dessa leitura deveria sair um clamor de tal forma audível que não pudesse deixar de incomodar os ouvidos dos atuais governantes.

A entrevista que Nádia Piazza deu esta semana ao jornal Expresso é superlativa. A mãe que perdeu o seu filho de seis anos no incêndio de Pedrógão Grande e que constituiu a Associação das Vítimas, diz de uma forma tocante mas informada o que muitos pensam e não dizem. Sem embarcar no choradinho da vitimização (ela que mais do que ninguém nele poderia cair) clama por Justiça. E a justiça passa por uma coisa muito simples: que os poderes actuais assumam a responsabilidade do que ocorreu. O que ela chama e muito bem, assumir a “onda de incompetência” que acabou por matar o seu filho e mais quatro dezenas de pessoas.

Ora isso significará que, reconhecendo todos que o Estado falhou, “seja natural e mesmo expectável” ser “o actual Governo, o actual Parlamento e o actual Presidente da República” a “assumir as responsabilidades”.

O jornalista pergunta: “Alguém lhe pediu desculpas? António Costa?” Resposta: “Não. Ninguém pediu desculpas”.  “Queria que o fizesse?” resposta: “Queremos que o primeiro-ministro assuma as responsabilidades de todo o Estado. Não pretendemos vergar a sua pessoa. Vergados e humilhados estamos nós”. “E sobre o Presidente?”, pergunta a jornalista. “O tempo de aconchego passou, agora é tempo de sentido de Estado”. E acrescenta,  o Presidente “tem de mudar de registo”.

O que é extraordinário é que passaram já três meses da calamidade e continua tudo na mesma. Ou antes, está tudo pior, porque cada dia a mais sem essa elementar assunção de responsabilidades mais vergonha devia crescer nas fácies do primeiro-ministro e do Presidente da República. Aliás, em boa verdade, está tudo muitíssimo pior: não só sobre Pedrógão não há nada, nem responsabilidades, nem relatório, nem indemnizações, como agora também não podemos discutir os “incêndios” (que durante três meses arrasaram o país) sob pena de sermos acusados de “aproveitamento político”. E é preciso uma das vítimas chamar a atenção para toda esta situação aviltante do Estado de Direito?

A entrevista devia ser lida por todos os portugueses. Alguns seguramente não gostarão dela. Mas dessa leitura deveria sair um clamor popular de tal forma audível que não pudesse deixar de incomodar os ouvidos dos actuais governantes.

É claro que nada disso acontecerá. Era necessário que os nosso concidadãos se sentissem tão incomodados quanto eu, o que certamente não ocorre. E a verdade é que os governantes actuais  também não estão muito preocupados. Um anda de olho nas sondagens o outro nos afectos e os dois a tocar a concertina e a dançar o solidó.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.



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