A expectativa sobre as reformas fiscais prometidas por Trump, a incerteza que rodeia as eleições francesas e eventuais mudanças na política do BCE são os temas em foco nos próximos três meses.

Chegado o fim do primeiro trimestre de 2017, é uma boa altura para pensar sobre os riscos que temos pela frente no próximo trimestre. Não falo de eventos black swan, esses não os vemos até que realmente nos apareçam à frente. Falo de riscos: eventos que têm uma probabilidade pequena mas tangível de acontecer. Que os investidores percebem que podem acontecer, mas que não parecem estar a antecipar apropriadamente.

Começando por Donald Trump, existe o risco de não conseguir entregar aquilo que prometeu. O Presidente sofreu a primeira derrota face ao Congresso quando tentou implementar as reformas ao sistema de saúde norte-americano que tinha prometido. Trump não se alongou demasiado acerca desta primeira derrota, afirmando que vai prontamente seguir para o campo das reformas fiscais.

A redução de impostos é uma medida que tem mais consenso dentro do Partido Republicano mas o facto das reformas do sistema de saúde não terem sido implementadas deixam a posição do Presidente fragilizada. As reformas ao sistema de saúde trariam alguma poupança em termos fiscais, e isso daria margem para implementar ajustes de impostos mais profundos. A expectativa do corte de impostos às empresas é uma das principais razões pela qual o mercado acionista tem subido tão vigorosamente desde a eleição de Trump, e por isso existe o risco de ocorrerem correções de curto-prazo caso os cortes de impostos não sejam tão grandes quanto o esperado.

As eleições legislativas francesas são, naturalmente, outro risco importante do segundo trimestre. As sondagens não dão demasiadas hipóteses a Marine Le Pen, mas a memória recente da eleição de Trump e do voto a favor do Brexit são um lembrete do quão binários e imprevisíveis os eventos eleitorais podem ser. Ganhos de popularidade de Le Pen vão certamente ser motivo de quedas nos mercados acionistas europeus.

A política monetária do BCE também vai ser um tema que vai estar cada vez mais debaixo de foco. O final do programa de compra de ativos só está planeado para Dezembro de 2017, mas à medida que essa data se aproxima, os investidores vão começar a ficar ansiosos acerca do que vai acontecer depois. Por enquanto ainda existe a expectativa de que Mario Draghi estenda o programa atual, mas, caso a inflação continue a subir na Zona Euro, é possível que o Presidente se veja obrigado a tomar medidas diferentes desta expectativa. O segundo trimestre provavelmente ainda é precoce para tais medidas, mas não deixa de ser um risco a mencionar.

Por fim, um tema que tem passado relativamente despercebido mas que acho que pode tomar proporções elevadas no caso de correr mal. O banco central chinês tem-se desdobrado em esforços para conter a fuga de capital da China, mas não é certo que as sensíveis medidas que se tem visto obrigado a tomar consigam efetivamente estancar a fuga de capitais. Uma das medidas mais óbvias para conter os fluxos seria subir as taxas de juro, mas o rápido endividamento da economia nos últimos anos levanta receios de que taxas de juro mais altas inviabilizem o modelo de crescimento económico do país. Por enquanto o banco central tem conseguido fazer o seu trabalho sem demasiadas consequências, mas não é certo que consiga continuar a fazê-lo.

Notícia publicada na edição impressa do Jornal Económico de 31 de março



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