Alemanha e Turquia continuam em rota de colisão

Desde julho de 2016 que os dois países têm acumulado conflitos diplomáticos. Desta vez, Recip Erdogan acusa Angela Merkel de defender terroristas.

Kayhan Ozer/Palácio Presidencial Turco/Reuters

Desde a tentativa de golpe de Estado na Turquia, em junho de 2016, que a Alemanha e a Turquia sustentam sucessivos conflitos diplomáticos que têm contribuído para azedar o ambiente entre as duas nações.

O episódio mais recente foi uma queixa por parte do presidente turco, Recip Erdogan, que acusou a Alemanha de apoiar terroristas ao ignorar documentos enviados para Berlim e não entregar suspeitos procurados pelas autoridades do país.

Num discurso proferido perante militantes do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), Erdogan afirmou, citado pela agência EuroNews, que “A Alemanha está a apoiar terroristas: entregámos 4.500 dossiês à chanceler alemã mas não recebemos respostas em relação a qualquer um deles”.

Os dossiês terão a ver com cidadãos turcos procurados pelas autoridades de Ancara – possivelmente acusados ou indiciados de terem participado de algum modo nos acontecimentos de julho do ano passado, e que Erdogan gostaria de ver acusados nos tribunais turcos.

A EuroNews recorda que, por seu lado, a Alemanha reclama a libertação de vários ativistas de direitos humanos e jornalistas, entre eles o turco-alemão Deniz Yücel, presos na Turquia com acusações de apoiar o terrorismo e que Ancara também recusa.

O mau entendimento entre as duas nações ficou claro quando a chanceler Angela Merkel demorou mais que o que seria diplomaticamente esperado a reagir à tentativa de golpe de Estado de julho. Merkel demorou a ligar por via telefónica para Ancara e a sua solidariedade para com o regime de Erdogan pareceu sempre, segundo os analistas, pouco sincera – ou, pelo menos, pouco veemente.

Outro episódio que promoveu o desentendimento foi a visita da primeira-ministra britânica Theresa May a Erdogan logo depois de o referendo sobre o Brexit ter determinado a saída do Reino Unido do espaço da União Europeia, May visitou a Turquia depois de ter estado alguns dias em Nova Iorque já depois de o presidente norte-americano Donald Trump ter tomado posse, e Berlim não gostou.

Pouco tempo depois, e face ao envolvimento do regime turco no referendo sobre a alteração da Constituição no sentido do aprofundamento do presidencialismo, Berlim colocou vários entraves à realização de sessões de esclarecimento que tinham como alvo os milhares de turcos que vivem na Alemanha – no que aliás foi prática corrente em outros países da União Europeia, nomeadamente na Holanda, onde chegou a haver alguma violência associada á visita de membros do governo de Ancara.

Como pano de fundo do conflito diplomático permanece a questão dos refugiados. A União Europeia tinha prometido o envio de dinheiro para Ancara ‘tomar conta’ dos refugiados que, dos lados norte e leste, chegam ao país para fugirem da guerra na Síria e assegurara que os cidadãos turcos poderiam, em pouco tempo, viajar para o espaço comum europeu sem terem de munir-se previamente de vistos. Ancara assegura que as verbas prometidas não chegam ao país e queixa-se de que a União Europeia ‘deixou cair’ a questão dos vistos. O conflito persistente entre as duas nações não ajuda a promover o auxílio de que os refugiados precisam.



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