Alberto Carvalho Neto: Um português à conquista do Oriente

Em menino, o plano inicial passava só por inundar o mundo de azeite transmontano. De preferência, daquele que conta a história da sua própria família. Hoje, muitos amigos e partilhas mais tarde, o jovem empresário lidera a Associação de Jovens Empresários Portugal - China (AJEPC), que organizou a FIN 2017, no Porto, um evento que contou com mais de 50 empresas. A FIN volta em 2018 e até lá a AJEP realiza novos eventos em Macau e no Brasil.

Cristina Bernardo

Como foi crescer no seio de uma família tão ligada à terra e visionária ao apostar na produção biológica?

Pertenço à sexta geração no mundo do olival. E nesta família de transmontanos sempre houve uma relação com o campo. No início da década de 80, o meu avô decidiu tentar trabalhar em agricultura biológica, numa altura em que não era moda, era apenas uma filosofia, uma tendência contra o que se fazia (essencialmente adubação) nos anos 50 e 60. Ele decidiu, também influenciado pelo facto de na altura sofrer de um cancro, que, pelo menos no que produzia, tudo seria feito forma diferente. Lança então a produção de agricultura biológica e, apesar de não termos a certeza da sua validação, a verdade é que nos consideram a primeira casa agrícola a produzir integralmente de forma biológica.

Como foi evoluindo o seu contributo para o negócio da família?

Quando entrei ao serviço da casa, instalei-me como jovem empresário agrícola. Tinha então 18 ou 19 anos e a produção biológica já era uma aposta com 30 anos. O meu foco foi o olival e o regadio. A minha visão já era aumentar a produção mas mantendo as raízes e a agricultura biológica. E porque na família, tanto do lado da mãe como do lado do pai, todos tinham lagares de azeite, a minha visão também assentava na união e em desenvolver o trabalho destas equipas e criar uma só equipa. Sensivelmente a partir de 2000, até 2010, fui encarregado de exploração e sempre apoiei a família na produção, transformação e comercialização.

E assim nasce a Branco Carvalho Neto (BCN)?

Sim, o apelido Branco vem do lado da mãe e o Carvalho Neto do lado do pai. Juntei-os e fiz a BCN. Até então, eram duas casas agrícolas e dois lagares que trabalhavam de forma independente. O meu objetivo era juntar a eficiência agrícola de todos os trabalhadores para conseguir maximizar os proveitos. São duas marcas diferentes, e apesar de se dizer que “entre marido e mulher não se mete a colher”, na realidade foi o que se passou. Não deixaram de ser marcas distintas e manteve-se a separação das áreas comerciais. A “Casa Valbom” é a marca da família Carvalho Neto; a “Origens e a “Estacão” são da família Branco, e a “Estacal”, criada em 2010, já é minha. Entre 2008 e 2009 começo então a explorar o mercado asiático, mas já antes, em 2000, tinha decidido explorar mercados como a Alemanha, França e Espanha, nomeadamente Galiza, para os quais começámos então a exportar em pequenas quantidades.

Aos 18 anos, sentia que estava a dar continuidade ao legado do avô?

Sim, mas num perfil diferente. O meu perfil era de união, de aposta em trabalhar em conjunto, tanto com os dois lados da família como com os vizinhos. E para um transmontano isto é muito difícil de entender, sobretudo para as gerações mais antigas. Porque um transmontano é muito acolhedor, quando alguém bate à porta responde logo que entre e só depois pergunta quem é, mas, ainda assim, quando é para trabalhar com um vizinho é muito complicado. Acho até que é algo que se estende a todo o Norte. Hoje em dia, ou melhor nos últimos 10 anos, tornou-se muito mais fácil. Passaram a existir grupos que têm outras formas de trabalhar. Mas há 15 anos atrás era praticamente impensável. Lembro-me de pedir, aos meus pais e aos meus tios, contactos de outras explorações agrícolas para fazermos parcerias e eles questionavam-me logo sobre a relevância dessas parcerias, alertando-me para a possibilidade de vir a ser enganado. Tinham este medo de que o vizinho, um concorrente, fosse sempre um concorrente. Mas com o tempo, esse vizinho passou a parceiro, a amigo. Passou a ser alguém com quem partilhamos viagens, com quem tentamos reduzir custos em participações internacionais. É daqui que nasce um movimento de entreajuda, networking, que se foi alargando à inovação, à cooperação, ao empreendedorismo. Em 2009, nasce então a AJEPC – Associação de Jovens Empresários Portugal – China.

À data, o que justificava tamanho interesse na Ásia?

No meu caso, o interesse na Ásia desperta com o facto de, na altura, a agricultura biológica começar a dar sinais de que se tornaria uma moda, e também porque estávamos a passar uma fase difícil em termos financeiros e estruturais na nossa empresa familiar, causada pela dificuldade em fazer as cobranças. E isso obrigou-me a procurar soluções. Quando comecei a ver relatórios, em 2007 e 2008, de que a China não consumia azeite, enquanto a Coreia do Sul e o Japão já consumiam bastante, percebi claramente que bastava que 1% da população chinesa passasse a consumir e o nosso mercado estava assegurado. As minhas primeiras viagens a Hong King foram bem-sucedidas e deram-me uma boa lição de vida sobre como se deve trabalhar em cooperação. Porque se o mercado crescesse rapidamente e eu não o conseguisse abastecer, o trabalho teria sido em vão. E a pior coisa que pode acontecer a uma marca é não estar no seu mercado, mesmo que temporariamente. Quebram-se as relações, primeiro com o consumidor, depois com o distribuidor e com o importador. Sabendo nós das nossas limitações de produção, só podíamos trabalhar com uma estratégia de cooperação. Fui logo buscar alguns players da minha dimensão, ou ligeiramente maiores, para trabalhar em conjunto para que, ao exportar, não fosse apenas uma marca. Passaram a ser quatro marcas da minha família, outras tantas de outras empresas, e todas juntas já fazíamos um contentor. Desta forma, já estaríamos 15 marcas num contentor, o que dava tempo para vender e reunir um pequeno lucro que se investia, outra vez, na terra e no regadio, porque foi com o regadio que fomos aumentando a produção.

Que características tem que o fizeram ser escolhido, de entre esse grupo de jovens empresários, para trabalhar com a China?

Em primeiro lugar, acho que é a minha capacidade de acreditar. A minha vontade de querer e de fazer as coisas a que me proponho. O que em grande parte se prende com os amigos que vamos fazendo na vida. E por isso foi tão importante entrar para o Grupo de Forcados das Caldas da Rainha, onde existem lemas como a verdade e o acreditar, onde aprendi a acabar aquilo que começo e a nunca desistir. Se tenho uma ideia ou se com um punhado de amigos temos uma ideia, temos de avançar porque só andando para a frente encontraremos a solução. Temos de ser positivos, mesmo dentro do negativismo. Mas isto também se explica com esta capacidade nacional, a capacidade tuga, de resolver qualquer situação, sobretudo se forem problemas dos outros. O verdadeiro tuga consegue ser ele mesmo uma ponte de ligação. E no caso deste movimento de empresários tornámo-nos, para além de portadores de produtos, intermediários de negócios. A nossa mais-valia é acreditar que Portugal é capaz de fazer negócios com o mundo. “Venham fazer negócios com Portugal”, tornou-se o nosso lema. Conseguimos atrair e concretizar mais negócios quando acreditamos em coisas maiores.

Que impacto foi tendo na família esta sua forma de gerir?

Foi interessante. Inicialmente, como seria expectável, houve um choque geracional mas com o tempo, compreensão e moderação, conseguimos dar a volta. Conseguimos pegar no que era conflito e transformá-lo numa oportunidade e numa lição de vida, porque as diferentes gerações, dentro da sua forma de estar, acabavam por ter alguma razão. Era só uma questão de diluirmos e filtrarmos. E, essencialmente, termos calma. Porque, por vezes, é difícil no seio das famílias conseguir gerir estas relações. Estamos a falar, em muitos casos, de gerações em contra ciclo, o que faz com que a geração que está no comando seja a mais nova. Mas esta, ainda assim, não tira mérito à anterior e está disposta a ouvir e a tentar criar sinergias. Por isso, para mim, acabou por ser uma grande lição de vida. Hoje, agradeço bastante aos meus pais pela confiança, tal como aos meus tios, e pela capacidade que tiveram de me deixar crescer e de me apoiar. E porque, realmente, me deixaram lançar os dados.

No início do seu percurso, era “tudo” isto que se imaginava a fazer?

Com 18 anos, a minha ambição era trabalhar em Trás-os-Montes para o mundo. Aquilo que dizia aos meus pais era que iria trabalhar localmente mas globalmente. Estudei engenharia zootécnica, na UTAD, porque quis aprofundar a paixão de sempre sobre o misto entre agricultura e o mundo animal, ainda que soubesse que não viria a ser veterinário porque levaria muito tempo, e o que queria era aprender mais e ser polivalente. Dentro da minha polivalência, acreditei sempre que poderia fazer mais. E desde muito cedo decidi associar-me a vários movimentos, acreditando que poderíamos pôr em prática as ideias. É importante acreditar que podemos fazer a diferença. Para além da aprendizagem no Grupo de Forcados, vivo uma outra experiência também centrada na partilha. Há 10 anos que recebo um campo de férias jesuíta na minha exploração agrícola para mostrar o que é a agricultura biológica e para dar aos jovens, dos 12 aos 16 anos, um pouco da visão da agricultura. Este movimento de partilha e união começou mesmo muito cedo, ainda muito novo já participava em campos de férias dos salesianos, onde, uma vez mais, o foco era a partilha. Tudo isto nasceu comigo mas foi sendo apurado com a possibilidade, e felicidade, de ir fazendo bons amigos ao longo da minha vida.



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