Na melhor das hipóteses, nunca o primeiro-ministro levou a sério uma hipotética candidatura do seu número dois ao poderoso cargo em Bruxelas.

De tudo o que tem sido dito, escrito, glosado e repisado sobre Mário Centeno e o seu putativo acesso ao cargo de Presidente do Eurogrupo, de que quase tudo pertence ao conjunto de intercepção entre o grupo surreal e o conjunto dos pós-factos,  recordo e retenho o alerta e o ensinamento da cantora: “Não vi as marcas do anel que o seu dedo me mostrava/ Só vi o seu olhar de mel, sem segredos, como água/ O que diziam não ouvi, pois pensava ser maldade/ Acreditei só quando vi, com os meus olhos/ A verdade”.

É que o chefe do Governo Português, ao declarar que o melhor sucessor de Dijsselbloem será o ministro Espanhol Luis De Guindos, a quem cobre de loas e mais loas, chegando a apodá-lo de “o nosso candidato”, vem desvelar agora a sua alma de marinheiro. António Costa, fazendo orelhas moucas a todo o ruído em torno da questão dos possíveis substitutos do holandês, sai-se com uma fuga para a frente típica da mais ortodoxa cartilha costiana e opta por uma manobra de diversão que, de resto, diverte duplamente… em Espanha!

Não estou certo do resultado das respostas de Costa à pergunta do jornalista, estivera este sentado numa redacção em Roma ou em Atenas, mas parece-me provável que o comediante Grillo ou o braço direito do camarada Tsipras fossem então e aí escolhidos como melhor Presidente do grupo do Euro. Mas estou certo do seguinte: na melhor das hipóteses, nunca o primeiro-ministro levou a sério uma hipotética candidatura do seu número dois ao poderoso cargo em Bruxelas, caso em que o poderia e deveria ter dito antes, evitando o ruído estéril e pondo cobro à nascença a um rumor sem fundamento, sem credibilidade e sem nenhuma verosimilhança. Por que razão o não fez, optando pela táctica de conveniência pura e oportunista e esperando pelo melhor momento, em que estivesse no conforto de um lugar estrangeiro, não sabemos. Mas parece lícito desconfiar que António Costa tem, afinal, um amor em cada porto.

O exílio de Mário Centeno no Eurogrupo comportaria, todavia, diversas virtualidades. De um lado, permitiria ao fustigado ministro das Finanças afastar-se de quem o atraiçoa ou desconsidera, consoante as alternativas. De outra banda, faria com que o Governo se desenvencilhasse, graciosa e superiormente, de um membro seu que, pelo desgaste que vem sofrendo, mais dia, menos dia acabará a bater com a porta. Por fim, essa solução daria a Centeno a oportunidade de se desamarrar de opções e posicionamentos que vão ao arrepio do que sempre defendeu e representou, na sua vida académica e profissional, reconquistando a liberdade de dizer o que pensa sobre crescimento, emprego e competitividade.

Afinal havia outra? – pergunta Centeno. Trocas e baldrocas – respondo eu.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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