“A grande questão é saber se há muitos frutos a colher do mercado da dívida”

Rui Bárbara, economista e gestor de ativos do Banco Carregosa, questiona se com taxas muito próximo do mercado italiano, ainda há frutos a colher no mercado da dívida em Portugal.

Daniel Munoz/Reuters

O que é de esperar para a política monetária europeia em 2018?
Se nada se alterar em relação à fase do ciclo económico em que nos encontramos e que é de recuperação, o caminho esperado e já anunciado é o da redução da política expansionista do BCE com o fim do chamado “Quantitative Easing” (QE) no final de 2018, dando lugar à mensagem da subida das taxas de juro, ainda em 2018, ou com maior probabilidade, no início de 2019.

Que influência é que a política monetária do BCE tem sobre os fundos de pensões e os seguros de capitalização relativamente aos ativos escolhidos?
Os bancos centrais ditam o custo do dinheiro e ao fazê-lo afetam a valorização de todas as classes de ativos. No caso europeu, ao colocar as taxas quase a zero e ao usar o QE para baixar as taxas de longo prazo no mercado, o BCE afetou o preço de todo o mercado porque, na prática, o que fez foi antecipar os retornos de todas as classes de ativos. Por isso, o que podemos esperar é que agora tenhamos retornos mais baixos do que o histórico.

Como é possível gerir produtos para clientes que querem risco controlado com as taxas de juro de referência europeias no zero?
Essa é a pergunta que quem gere dinheiro de clientes se depara todos os dias. É uma situação ímpar que torna especialmente difícil satisfazer clientes com baixa tolerância ao risco, porque as rentabilidades esperadas para os ativos com pouco risco são muito baixas.

A opção por ativos americanos é uma solução?
É verdade que as taxas nos EUA já começaram a subir, mas não podemos ignorar primeiro, que mesmo nos EUA a economia ainda está longe da normalização e, segundo, que investir em ativos norte-americanos gera risco cambial a um investidor baseado em euros. Para não estar sujeito ao risco cambial, é necessário fazer a cobertura cambial que lhe pode anular eventuais ganhos.

A opção por ativos como imobiliário europeu é uma opção viável ou é risco excessivo?
O imobiliário também não escapou à influência das políticas dos bancos centrais e, apesar de haver especificidades de país para país, podemos dizer que, em média, o imobiliário está caro

É expectável que com a última notação da Fitch os fundos de pensões nacionais e os seguros de capitalização escolham dívida soberana e privada para os respetivos portefólios?
Sim e muitos investidores institucionais já estavam a fazê-lo. A questão é que já não há muitos frutos para colher no mercado de dívida. Portugal já tem taxas muito próximas das taxas italianas, por exemplo.

A dívida pública em face do PIB é das mais elevadas na zona euro. Esse facto não é um travão à expansão das compras de obrigações soberanas nacionais?
É um fator de risco elevado que os investidores têm ignorado olimpicamente. Preferem acreditar nas compras do BCE – que tem absorvido muita dívida portuguesa ao abrigo do QE – que criou a ilusão de que o risco da dívida dos países da europa é todo igual, mas não é.



Mais notícias
PUB
PUB
PUB