Venezuela: a gasolina mais barata do mundo não é consolo para uma sociedade em crise

O litro de gasolina é mais barato do que uma garrafa de água pequena. Atualmente, a turbulência social não está relacionada com os combustíveis, mas sim com a grave crise económica que o país atravessa.

A Venezuela tem a gasolina mais barata do mundo. Um litro de super, a mais usada, custa 0,01 dólares por litro (0,009 euros). Para se ter um termo de comparação, os habitantes sabem que um litro de combustível é vinte vezes mais barato do que uma garrafa de água pequena. De acordo com o site GlobalPetrolPrices, Arábia Saudita, Turquemenistão, Argélia, Egipto e Kuwait são os outros países, após a Venezuela, com a gasolina mais barata.

Os poços mais importantes estão nos estados de Carabobo e de Maracaibo. Diariamente são produzidos 2,2 milhões de barris, o principal produto exportado pelo país, segundo dados de fevereiro de 2017.

A alta produção de petróleo e o baixo preço da gasolina influencia o dia-a-dia dos venezuelanos. A começar pelo tráfego. O trânsito na cidade é caótico e carros de marca Toyota, Chevrolet ou Hyundai têm, no mínimo, 1.900 de cilindrada. Não vale a pena comprar um carro fraco se o preço da gasolina é tão barato.

Às seis da manhã, as filas entopem todos os acessos da capital. Para piorar ainda mais a situação, muitos condutores estacionam os carros na berma da estrada para ir ao banco, à padaria ou até comprar o jornal. A esta hora, o ponteiro que controla a velocidade dos automóveis quase não mexe: 1,2 quilómetros por hora é a velocidade máxima a que se consegue circular na Avenida Francisco de Miranda, uma das principais de Caracas.

A decisão de aumentar o preço do combustível sempre provocou reacções fortes por parte da população. No dia 27 de fevereiro de 1989, data que ficou conhecida como o “Caracazo”, o governo do presidente Carlos Andrés Perez anunciou uma série de medidas anti-populares para conter a crise económica do país. Uma delas foi o aumento do preço da gasolina.

Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar. Os conflitos duraram cinco dias e morreram mais de mil pessoas. Em 2002, temeu-se que acontecesse o mesmo. O presidente Hugo Chávez decidiu demitir os gestores da PDVSA e substituí-los por pessoas da sua confiança. Em protesto, e para tentar forçar a queda do presidente, os opositores convocaram uma greve geral de trabalhadores. Como consequência, metade dos poços do país ficaram paralisados.

Maduro convoca exército nas ruas de Caracas

No entanto, atualmente, a turbulência social não está relacionada com os combustíveis, mas sim com a grave crise económica que o país atravessa. Supermercados vazios e a população à beira do desespero. Após intensos protestos, Nicolas Maduro ordenou ao exército venezuelano que marche nas ruas da capital. O governo anunciou mesmo uma “marcha histórica”, em Caracas, para assinalar o 207º aniversário da ‘revolução’ de 1810, que levou à independência do país.

“Se a oposição deseja fazer alguma atividade tem que saber que o ‘chavismo’ estará nas ruas, e vai ter que cumprir com a Constituição e a normas estabelecidas para as manifestações públicas e pacíficas”, disse o vice-presidente da Venezuela, Tarek El Aissami, à televisão estatal.

A Venezuela tem testemunhado um aumento significativo das manifestações de protesto contra Maduro – tanto em Caracas como nas cidades e vilas mais pobres do país –, particularmente desde a tentativa de dissolução da Assembleia Nacional, decretada pelo Supremo Tribunal de Justiça, no final do mês passado, entretanto revertida pelo regime.

Desde o início de abril, cinco pessoas morreram e centenas ficaram feridas em manifestações contra o Governo venezuelano que resultaram em confrontos com a polícia.

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