Universidade angolana diz que existem “processos” que envolvem “altas figuras” do Estado português

Anúncio publicado no "Expresso" começa com críticas às fugas de informação no processo que envolve o vice-presidente Manuel Vicente e termina com alusões às centenas de milhar de portugueses que vivem em Angola e à alegada existência de "relevantes processos" que envolvem "altas figuras" do Estado português.

Num fim-de-semana dominado pela visita do Papa Francisco, pela festa do “tetra” do Benfica e pela vitória de Salvador Sobral na Eurovisão, passou relativamente despercebido um anúncio publicado na página 31 do primeiro caderno do semanário “Expresso”. Poderia ser apenas mais um anúncio de venda de imovéis de luxo ou de leilões de antiguidades, mas o quarto de página pago pela Universidade Metodista de Angola (UMA) é algo de completamente diferente.

O texto, datado de 18 de março mas publicado apenas no passado sábado, começa por ser uma crítica às fugas de informação no processo judicial que envolve o vice-presidente angolano Manuel Vicente e termina com alusões às centenas de milhar de portugueses que vivem em Angola e à alegada existência de processos judiciais que envolverão “governantes e ex-governantes” portugueses. A publicação deste anúncio é o mais recente episódio do braço-de-ferro entre Luanda e Lisboa a respeito das investigações da Procuradoria Geral da República (PGR) de Portugal a altas figuras do Estado angolano. Depois das críticas que têm sido feitas pelos dirigentes do MPLA, é agora a vez de uma entidade privada angolana – mas que se descreve a si mesma, no anúncio, como “parceira social do Estado e por ele legalmente autorizada” – entrar na contenda, fazendo referências a alegadas suspeitas que recairão sobre políticos portugueses.

Ao longo de um texto de cinco parágrafos, com o título “Dignificação”, a reitoria e a administração da UMA saem em defesa do vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, que está a ser investigado pela PGR por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais. No anúncio, a UMA exprime a sua “indignação não sobre a matéria de facto, mas sim sobre a forma como os despachos de acusação foram divulgados através dos meios de comunicação social”. Esta divulgação, acrescenta a UMA, “produz efeitos nefastos em relação a uma individualidade com alta responsabilidade pública e política de um Estado irmão de Portugal”.

“É desejável que não aconteça”

E é a partir deste ponto que o tom do texto endurece, com referências às largas centenas de milhar de portugueses que vivem em Angola e à alegada existência de “relevantes processos” que envolverão “altas figuras” do Estado português.

“Angola, actualmente, acolhe centenas de milhares de portugueses que aqui vivem e trabalham, e a divulgação de tais notícias induz na opinião em pública em geral um sentimento de julgamento popular que em nada abona no princípio da presunção de inocência”, refere o texto assinado pela reitora e pela administração da universidade.

“Angola também poderia praticar os mesmos actos em relação a relevantes processos que envolvem altas figuras do Estado português, entre governantes e ex-governantes, e que, também com as interligações com o meio empresarial nacional e português, certamente teria bastante matéria para degradar essas figuras”, refere a universidade, salientando que, “no entanto, até agora, e tanto quanto a UMA pode verificar, tal não tem acontecido e é desejável que não aconteça”.

“Para os devidos efeitos, procederemos à publicação nos jornais de Angola e Portugal e daremos o devido conhecimento às Autoridades dos dois Estados”, concluiu a UMA.

A Universidade Metodista de Angola é uma instituição detida pela Igreja Metodista e pelo grupo português Listorres, sediado no Entroncamento, que detém 57% do capital, segundo a imprensa de Luanda. Fundada em 2007, a universidade conta com cerca de nove mil alunos em seis cursos de licenciatura. De acordo com os jornais angolanos, a Igreja Metodista tem procurado obter o controlo da maior parte do capital da instituição, travando um braço-de-ferro com a Listorres e contando para tal com o apoio do presidente José Eduardo dos Santos.

O Jornal Económico tentou obter esclarecimentos da UMA e do grupo Listorres, mas até ao momento não foi possível.

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