Uma gaivota voava, voava

O Porto está colonizado pelas gaivotas – há zonas da cidade que se parecem cada vez mais com o plateau do filme ‘Os pássaros’, de Hitchcock – o que transformou o outrora alegre chilrear da passarada num caso sério de saúde pública.

Os únicos seres que não têm de se preocupar com a barafunda que se passa por cima das cabeças dos portuenses e dos milhares de turistas que deambulam pelas ruas, são os peixes – dado que as gaivotas arranjaram menus alternativos bem mais fáceis de conseguir.

A maior parte delas abastece-se nos aterros da Lipor, mas as mais preguiçosas e as mais corpulentas almoçam e jantam os pombos que com elas partilham os céus (que quase desapareceram dos jardins das cidades, para desgraça dos velhinhos que não têm a quem alimentar), os gatos mais jovens, os cães mais pequenos e as ratazanas mais distraídas, num espetáculo sanguinolento e desbragado, que provoca enjoo até aos estômagos mais preparados.

As mais preguiçosas mas menos corpulentas servem-se diretamente dos sacos do lixo doméstico, que criteriosamente abrem e espalham pelas ruas – na tentativa sempre coroada de sucesso de escolherem os nacos mais apetitosos. Há-de ser por isso que as ruas do Porto cheiram, por estes dias e quase constantemente, a detritos.

Os efeitos colaterais nas pinturas dos automóveis são aqueles que se conhecem – salvo quando o voo picado da passarada falha esses alvos inertes e acerta nos andantes, que rapidamente têm de fugir dos olhares dos seus pares tentando esconder o cabelo empastado ou as roupas tingidas de uma coisa branca a escorrer por ali abaixo.

Mas há pior: segundo parece, as gaivotas são pássaros territoriais – pelo que já se dão ao luxo de disputar os locais que lhes são mais aprazíveis com os seres humanos. Os relatos de encontros imediatos entre gaivotas a fazer de conta que são os Junkers Stuka da II Guerra Mundial e os incautos moradores multiplicam-se.

Outro exemplo para piorar um bocadinho: um dia destes, um casal de gaivotas perdeu uma cria no recreio de uma escola privada da cidade; a partir daí – e mesmo depois da remoção da cria – as crianças deixaram de poder frequentar o recinto, uma vez que os desafortunados procriadores assumiram que quem quer que fosse que se encontrasse por ali era um potencial inimigo.

A câmara foi contactada e os serviços respetivos foram providenciais: aconselharam a que as crianças fossem impedidas de brincar por ali durante umas semanas e a que quem tivesse de passar pelo recreio se munisse de um guarda-chuva ou de uma vassoura (uma catana seria bem mais eficaz) e lutasse pela vida.

Segundo parece, a autarquia já tentou afastar a bicharada das mais diversas formas (até com ultrassons) mas a coisa não está fácil. Mesmo difícil, é da sua responsabilidade resolver este problema de saúde pública – que, espera-se, passe também por multar os palermas dos moradores que continuam, bondosos, a alimentar a passarada.

Se a Agência Europeia do Medicamento acabar por ser instalada no Porto, os seus responsáveis podem estar certos de uma coisa: em pouco tempo, os seus telhados estarão cheios de guano.



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