Uma Europa a duas periferias

A bacia do Mediterrâneo e os países de Leste serviram sempre de tampão às tempestades, permitindo o desenvolvimento dos países do centro. A Europa a duas velocidades é uma fotocópia da Europa a duas periferias.

Os árabes chegaram à Europa pela Península Ibérica, antes de tomarem as ilhas do Mediterrâneo; os Vikings chegaram a conquistar algumas dessas ilhas; a Polónia fez parte por diversas vezes do império russo, o mesmo tendo acontecido à Finlândia; o império otomano entrou na Europa pelos Balcãs – que haveriam de pegar fogo muitos anos mais tarde, em 1912, 1913, 1914 e 1991 e 1996; os refugiados subsaarianos chegaram à Europa pela Espanha e mais tarde pela Itália e pela Grécia; os refugiados da guerra da Síria tomaram os corredores do Mediterrâneo (Grécia e Itália) e do Mar Negro (Bulgária, Roménia e Hungria); a Rússia atacou a Ucrânia e interditou, sem sucesso, a entrada na NATO dos países com que faz fronteira a Oeste; Kaliningrado continua a ser um anacrónico enclave russo entre a Lituânia e a Polónia; Chipre ainda é um problema com os turcos; as Canárias chegaram a ter um exército independentista de libertação pró-africanista nos anos 60 e 70 do século passado; e até Gibraltar é uma dor de cabeça entre a Espanha e Inglaterra.

Tanto historicamente como na atualidade, os países do centro da Europa tiveram sempre em seu redor uma cintura de segurança que lhes permitiu estar a salvo de guerras, sobressaltos fronteiriços, vizinhos belicosos e refugiados em debandada – salvo, claro, quando eram esses próprios países a lançasr aventuras bélicas por interesse próprio.

Não é com certeza por acaso que o mapa da periferia da Europa encaixa quase sem alterações no mapa da chamada Europa a duas velocidades (com a periferia a assumir a velocidade mais baixa). Vários politólogos têm vindo a chamar a atenção para esta evidência, na tentativa de provarem que a Europa da ‘primeira velocidade’ tem uma obrigação acrescida para com a Europa da ‘segunda velocidade’, exatamente porque é a segunda que induz na primeira a possibilidade de não se preocupar senão com a sua própria agenda. Neste quadro, a bacia do Mediterrâneo e os países que limitam a Europa a Leste são uma espécie de jardim das traseiras da Europa Central, ficando-lhes historicamente reservada a defesa a todo o custo, por muito alto que ele possa ser, da Europa.

Ditaduras em ascenção
A questão das periferias da Europa tem vindo a ganhar surpreendente e improvável relevância na atualidade, por várias questões. A principal será a instalação na periferia Leste do continente de democracias musculadas, cada vez mais parecidas com ditaduras. A Rússia de Vladimir Putin tem dado mostras de manter uma política fronteiriça dura e inflexível, como ficou bem patente na Crimeia e na Ucrânia.

Um pouco a Sul, a Turquia está a um passo de transformar a democracia herdeira de Ataturk num presidencialismo onde Recep Erdogan dispõe de todo o poder. O referendo à Constituição no sentido do aprofundamento do presidencialismo – que já está em curso – deverá selar essa tentação. Mas os analistas não têm dúvidas: não só os poderes de Erdogan são já muito vastos – como ficou bem patente com a resposta ao pretenso golpe de Estado de julho do ano passado – como o referendo é apenas um pró-forma que, em caso de derrota, Erdogan saberá contornar. Até porque, recordam, na sequência do golpe de Estado falhado, o presidente conseguiu ‘limpar’ os seus mais diretos adversários, tanto na área da Justiça, como principalmente no que tem a ver com o exército, tido pelos turcos como uma espécie de barómetro da democraticidade do regime, pronto a intervir para refrear quaisquer excessos veiculados por Ancara.

Qualquer destes dois regimes tem vindo a radicalizar as suas relações com a Europa. Putin porque não está interessado em que os países que fazem fronteira com a Rússia entrem na NATO ou sejam governados por partidos que hostilizem a mãe-Rússia (‘mãe’ pelo menos no caso dos povos eslavos) – não esquecendo a importância destes estados como clientes das fontes de energia russas. E Erdogan porque a União Europeia andou anos a acenar-lhe para nada com a entrada no espaço comum.
De repente, Donald Trump ganha as eleições nos Estados Unidos. Entre muitas outras singularidades das suas opções políticas, o novo líder do império do lado de lá exortou os seus aliados europeus a gastarem mais na defesa. A discussão (ainda) não se coloca nos países pobres, mas a questão dos gastos militares é central, por exemplo, nas presidenciais francesas.

Uma das questões que demonstraram ser mais relevantes durante o debate com os cinco principais candidatos ao escrutínio de 23 de abril, ocorrido há um par de semanas, foi precisamente a de se saber até que ponto cada um deles está disposto a abrir o orçamento às despesas militares. Para se poder avaliar da importância do assunto para os franceses, recorde-se que nem Jean-Luc Mélenchon, candidato da esquerda à esquerda do PS francês, e por isso insuspeito de ser de direita, deixa de equacionar a hipótese de sustentar o aumento dos gastos na defesa.

Este quadro, uma Europa a duas velocidades e a duas fronteiras, onde o centro desenvolvido ignora as periferias eternamente deficitárias, não é seguramente um bom caminho.

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