Uma casa do livro para a memória do livro

Eis um projeto que talvez trave o aparente desinteresse de grande parte dos governantes pela cultura literária que, pasme-se, constitui também um enorme chamariz turístico.

Desde que me recordo que tenho uma enorme fascinação pelas obras de grandes autores irlandeses como o poeta W. B. Yeats, George Bernard Shaw, Bram Stoker, Oscar Wilde, o dramaturgo Samuel Beckett ou o grandioso James Joyce. Para o bem ou para o mal, a cidade de Dublin, na República da Irlanda, assombrou muitos destes autores e recentemente tive a oportunidade de conhecer a cidade, explorar as suas ruas e familiarizar-me com a sua História.

É uma cidade com um elevado número de autores universais e intelectuais, e isso está bem patente no Museu de Escritores de Dublin, com várias divisões que destacam alguns dos principais vultos literários irlandeses. Enquanto muitos se tinham envolvido ativamente em política, outros tinham escolhido o exílio em cidades europeias como forma de fugir à censura praticada na Irlanda.

Por mais singelo que se apresentasse esse museu, ocorreu-me que Lisboa não tem nada de semelhante. É verdade que o nosso país tem algumas das mais belas e famosas livrarias – a Lello no Porto e a Bertrand Chiado ou a Ler Devagar em Lisboa figuram como atração turística, o que é notável num país em que um livro vende, em média, 1000 exemplares – mas não há um museu exclusivamente dedicado à memória do livro, em particular, à obra de escritores e poetas portugueses.

Consigo facilmente imaginar uma casa do livro onde neoclássicos, românticos, realistas, modernistas, surrealistas, existencialistas, neorrealistas (só para mencionar algumas correntes) se cruzam e confluem em várias salas, narrando a ilustre história da literatura portuguesa e lusófona e — porque não? — a história da própria edição portuguesa que tem tanto para contar. E o que dizer dos poetas de renome, tantos deles? Só o séc. XX é fértil em alguma da mais sublime obra poética na língua portuguesa.

Faria sentido uma casa de escritores portugueses ou apenas de Lisboa ou Porto? É algo a pensar. A minha impressão é que Lisboa (o caso que conheço melhor) é uma cidade que negligencia os livros, mesmo com todo o fogo de artifício causado por belas livrarias. Não há nem sequer uma boa feira regular que privilegie os alfarrabistas, com exceção da feira realizada na rua da Anchieta, com condições quase nulas e sujeita às condições climáticas.

A criação de uma casa ou instituição dedicada à memória do mundo do livro, dos autores, poetas, dramaturgos e editores seria um projeto muito necessitado e talvez capaz de travar o aparente desinteresse de grande parte dos governantes pela cultura literária que – pasme-se – constitui também um enorme chamariz turístico. Fica a sugestão, pois seria uma pena viver num país que não tem interesse em preservar o legado do passado e que prefere apenas rumar ao sabor de novas tendências.



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