Combater as desigualdades é fundamental para permitir que todas as regiões usufruam dos benefícios económicos que a atividade turística traz, que são diretos, mas também, em grande medida, indiretos.

Há duas semanas, o Instituto Nacional de Estatística divulgou os dados preliminares da actividade turística em 2017. Sem surpresa, o sector continua a bater recordes e a fazer títulos de notícias. O número de hóspedes ultrapassou a fasquia dos 20 milhões, tendo crescido quase 9% face a 2016. Uma tendência que não é novidade, nem um exclusivo de Portugal, já que a actividade turística está em expansão mundial. O ano passado viu também aumentar as dormidas, embora o seu crescimento tenha sido de apenas 7,4%, inferior ao do dos hóspedes. Naturalmente, tal facto implicou uma ligeira redução da estada média. Ao mesmo tempo, tanto a receita por quarto disponível (RevPar) como a taxa de ocupação aumentaram, pelo que também superiores foram os proveitos, que, em 2017, cresceram 16,6%.

A refrear os ânimos, o FMI alertou para a dependência da economia portuguesa em relação ao sector do turismo. No seu relatório da sexta avaliação pós-programa, na secção dedicada aos riscos, pode ler-se: “A dependência do sector do turismo deixa Portugal vulnerável a choques externos. O sector do turismo beneficiou de desenvolvimentos geopolíticos que aumentaram a atractividade de Portugal relativamente a destinos concorrentes.” Sobre isto algumas considerações.

Logicamente, quanto mais diversificada for uma economia, menos sujeita a choques estará. Já diz o ditado popular que os ovos não devem ser colocados todos no mesmo cesto. Se os ovos forem os da origem dos nossos hóspedes internacionais, aquilo a que se tem assistido, desde 2015, é a uma diminuição do índice de concentração. O Reino Unido é o nosso principal mercado emissor, seguido de Espanha e França (que ultrapassou a Alemanha em 2014). Há cada vez mais turistas oriundos destes três países, mas, em termos relativos, eles têm vindo a representar uma fatia menor, o que significa que fomos capazes de diversificar os mercados de origem.

Não é desejável que qualquer economia esteja dependente de uma actividade económica, seja ela qual for. Tratando-se essa actividade do turismo, costuma invocar-se a sua especial sensibilidade a variações de preço e do rendimento, aquilo que os economistas designam por “elasticidade”. Ora, alguns estudos académicos chegaram à conclusão que a elasticidade da procura de viagens turísticas se tem vindo a reduzir, o que traduz uma menor vulnerabilidade do sector.

Segundo os dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (World Travel & Tourism Council, WTTC), o contributo total do turismo – isto é, contabilizando efeitos directos, indirectos e induzidos – para o PIB português foi, em 2016, de 16,6%. Este valor encontra-se acima da importância que o sector tem na economia da União Europeia (10,2%), mas não coloca o país no pódio. Numa economia como a austríaca, por exemplo, o turismo vale 15,6%.

Por outro lado, se é verdade que nunca o turismo foi tão relevante para o nosso produto, também se mostra que o seu peso não cresceu espectacularmente: em 1995, correspondia a 14,1% e o valor mais baixo que assumiu nestes 22 anos foi 12,5%, em 1999.

Mais importante, usando dados dos países da União Europeia para construir um gráfico onde se coloque o PIB per capita e o contributo que o turismo dá para a economia, não se vislumbra qualquer relação negativa entre estas duas variáveis. Ou seja, a aposta na actividade turística não parece constituir um entrave ao crescimento.

Na verdade, a Estratégia Turismo 2027 estabelece como meta “afirmar o turismo como hub para o desenvolvimento económico, social e ambiental em todo o território”. Analisemos, então, os dados para as várias regiões turísticas de Portugal (que correspondem às NUTS II). E o que eles nos mostram é que, tal como sucede com outros sectores de actividade, também no turismo existem significativas assimetrias regionais.

Desde logo, em termos de hóspedes, Lisboa e Algarve representam metade do turismo em Portugal. Se juntarmos o Norte (em termos de dormidas, esta região deixa o pódio para dar lugar à Madeira), temos 70% dele, que passa a 76% se nos focarmos apenas nos turistas internacionais. Ou seja, a actividade turística é uma realidade geograficamente concentrada. É certo que todas as regiões cresceram em 2017. E, em particular, Centro, Alentejo e Açores cresceram acima do que Portugal como um todo cresceu. Claro que, partindo de bases mais pequenas, é mais fácil ter taxas de crescimento elevadas, mas superarem a média nacional significa que estão a ganhar importância relativa. Mas também Lisboa, a região que mais turismo tem, o está.

Esta assimetria está patente nos demais indicadores. O RevPar português de 50,20 euros esconde grandes disparidades: é de mais de 70 euros em Lisboa, não chega aos 30 euros na região Centro. E, ao contrário do que até se podia pensar, preços mais altos não estão associados a taxas de ocupação mais baixas. A Madeira tem a mais alta delas, seguida de perto por Lisboa, ao passo que a região Centro é a que fica com mais quartos desocupados. A boa notícia é que a evolução tem sido favorável, no sentido da convergência com a média nacional, apesar de Lisboa acentuar o seu domínio.

Combater estas desigualdades é fundamental. Desde logo para permitir que todas as regiões usufruam dos benefícios económicos que a actividade turística traz, que são directos, mas também, em grande medida, indirectos, pela promoção de outros sectores que lhe estão conexos. Por outro lado, para evitar potenciais custos de congestão nas regiões onde se concentram os hóspedes.

Fazer a promoção turística destas regiões menos procuradas é muito importante. Na Bolsa de Turismo de Lisboa, que hoje abre ao público, a região Centro estará em destaque, como região nacional convidada. Mas é preciso mais. É preciso conhecer quem a visita e perceber o que nela atrai, que produtos tem para oferecer e a quem interessam eles, para se saber junto de quem os divulgar. Mercados como Brasil ou os EUA – de onde vêm turistas que tipicamente deixam mais dinheiro no destino, precisamente aquilo que se pretende –, por exemplo, dirigem-se relativamente mais para as regiões Norte e Centro. É normal que não escolham o Algarve, cujo produto turístico se faz de sol e praia, coisa que abunda no continente americano. Já no caso dos turistas espanhóis, a proximidade, que permite a vinda de carro, deve contribuir para o peso que essas duas regiões têm na sua procura.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.




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