Trump empurra Qatar para antecâmara da guerra

Visita de Donald Trump à Arábia Saudita extremou posições no mundo árabe, com consequências imprevisíveis. Estados Unidos podem ter feito um grande favor à… Turquia. Viagem do presidente americano foi “detonador da discórdia”, diz especialista.

Apesar de todos os apelos às negociações, de todas as ofertas de mediação e de todos os avatares entretanto produzidos nas mais variadas geografias, o certo é que, em termos da gramática da diplomacia, o corte de relações entre dois países (ou mais) e a suspensão de todos os relacionamentos, económicos e outros, “é o último nível não belicista da escala, precisamente antes de uma declaração de guerra.”

Em entrevista ao Jornal Económico, André Pereira Matos, coordenador da licenciatura em Relações Internacionais da Universidade Portucalense e especialista no Médio Oriente, afirmou isso mesmo, para de seguida caracterizar a recente viagem do presidente Donald Trump à Península Arábica como uma espécie de “detonador da discórdia entre os países árabes”.

E, em termos do que é a proposta de Trump – acabar com o terrorismo internacional – é altamente duvidoso que mais esta clivagem numa região onde os equilíbrios políticos são tão raros como são, na proporção inversa, as reservas de petróleo, venha a atingir esse fim. Até porque, como lembra Pereira Matos, “todos os países da região têm telhados de vidro em termos do apoio mais ou menos velado a grupos terroristas”.

É isso que acontece no Qatar – mas também na Arábia Saudita com os Taliban e a Al Qaeda – em relação ao Hamas (palestiniano) e aos Irmãos Muçulmanos (egípcios), que o poder no emirado, nas mãos da família real Al Thani há mais de 200 anos (mesmo na altura, até 1971, em que a região era um protetorado britânico) afirma ser uma questão de defesa interna.

Consumado o entrincheiramento do pequeno enclave com pouco mais de 11 mil metros quadrados, os Estados Unidos, Rússia, Kuwait e Turquia prestaram-se a assumir a função de mediadores. Uma mediação dos Estados Unidos parece estar fora de causa, dada a profunda alteração da política do país em relação àquela região, quando comparada com a estratégia não-conflituante mantida por uma década pelo anterior presidente, Barack Obama.

Mediação turca

No quadro das forças em presença, e segundo o professor universitário, a Turquia leva vantagem em relação aos restantes interessados na mediação. Desde logo porque, recorda, “a Turquia há meses que está em negociações com o Qatar para instalar naquele emirado uma base militar, que lhe permitisse, por um lado, uma posição estratégica no Golfo Pérsico, e, por outro, para aproximar os dois países.

Depois, mas não menos importante, a Turquia, não sendo um país árabe (ou seja, para todos os efeitos é uma potência externa), é um país muçulmano de maioria sunita, tal como sucede com a Arábia Saudita.

Se esse cenário previsível vier a acontecer, a Turquia atinge – sem que, por esta via, o pudesse antever – uma posição invejável de potência regional. Algo que o seu presidente, Recip Erdogan, persegue há tanto tempo – o reforço dos seus poderes constitucionais é um passo nesse sentido – e que agora poderá inesperadamente conseguir através de mais um dislate norte-americano em termos de política externa.

Mas André Pereira Matos não se esquece de afirmar que, no meio do caos instalado, “a União Europeia, que não tem interesses particulares na região [a não ser como cliente dos recursos fósseis] volta a ter uma ocasião para se assumir como uma potência mediadora; infelizmente, não se viram passos nesse sentido”.

A decisão árabe de isolar o Qatar pode ser, por outro lado, uma forma de promoção da instabilidade. A vários níveis: “cerca de 40% dos alimentos consumidos no Qatar (com uma população que ronda os 2,5 milhões) são importados da Arábia Saudita”. Ora, o fecho das fronteiras, o corte das relações comerciais e a proibição dos voos entre Riad e Doha, as capitais, vai induzir uma enorme efervescência social, “com o risco, inclusivamente, de ocorrer um golpe de Estado”, afirma Pereira Matos. Ou seja, “tudo pode ficar fora de controlo” na sequência da tomada de posição árabe patrocinada pela Casa Branca – que o investigador caracteriza como “descuidada, demagógica e populista”. Até porque, recorda ainda, “os Estados Unidos têm uma base militar no Qatar”. O outro perigo, como já disseram publicamente vários analistas, “é o Qatar radicalizar-se” – e, nesse quadro, criar um problema bem maior para o resto do mundo em termos de patrocínio do terrorismo internacional.

Pano de fundo: Israel e Irão

Para além do controlo do terrorismo – que como se percebe está longe de ser assegurado por esta via – a estratégia da Casa Branca para o Médio Oriente pretende chegar a outro fim: o apoio do Islão sunita a Israel e, como consequência, a diminuição da conflitualidade entre israelitas e palestinianos. Mas ninguém parece estar convencido de que isso venha a suceder por esta via: os analistas convergem na evidência de que este caminho é demasiado sinuoso e demasiado perigoso para atingir esse fim.

No meio da balbúrdia instalada, espreita a suspeição do costume: a cruzada que Donald Trump decidiu empreender contra o Irão, país governado pelo xiismo e que o presidente dos Estados Unidos considera ser o verdadeiro instigador de todo o caos no Médio Oriente. O que quer dizer que a questão do Qatar pode ser apenas uma espécie de cortina de fumo para outras decisões norte-americanas ou, pior ainda, um isco para o país dos aiatolas concluir que a guerra é a única saída.

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