Sylvia Earle: “Tudo o que deitamos ao mar volta para nos atormentar”

Em entrevista ao Jornal Económico, a oceanógrafa assume que vários líderes mundiais têm falhado na luta pela defesa dos oceanos e das suas criaturas vivas e lembra que está ao alcance de todos nós contribuir para tornar o mundo um pouco melhor.

A oceanógrafa norte-americana Sylvia Earle, considerada pela revista Time como “heroína do planeta”, esteve esta semana em Portugal para participar na National Geographic Summit, que decorreu esta quarta e quinta-feira. Aos 77 anos, a oceanógrafa levou ao palco do Coliseu dos Recreios as suas preocupações com a defesa dos oceanos, que garante serem a chave para a sobrevivência humana.

Em entrevista ao Jornal Económico, Sylvia Earle fala sobre a sua luta pela defesa dos oceanos e das suas criaturas vivas e recorda o início da sua carreira, numa altura em que as mulheres apenas podiam sonhar em desempenhar trabalhos tradicionalmente dados a homens. A exploradora assume que vários líderes mundiais têm falhado na defesa do ambiente e lembra que está ao alcance de todos nós contribuir para tornar o mundo um pouco melhor.

Porque é que é tão importante proteger os oceanos?

Sabemos que os oceanos definem o clima e o estado do tempo, regulam a química planetária, corresponde a 97% da água do planeta, serve de abrigo para 96% das criaturas vivas que existem na Terra. O oceano é a chave não só para a nossa existência, mas para a de todo o tipo de vida no planeta. Cuidar dos oceanos é importante para a nossa economia, saúde, segurança e sobretudo para garantir a nossa sobrevivência.

Como pode a proteção dos oceanos influenciar as economias mundiais?

Primeiro, porque são os oceanos que tornam possível respirarmos todos os dias. Se quisemos criar uma economia em Marte, primeiro temos de ter condições para viver lá. Nós conseguimos viver neste planeta porque o oceano proporciona-nos a maior parte do oxigénio que respiramos. O oceano capta o dióxido de carbono e conduz os ciclos básicos que suportam a nossa vida, que depende e muito da qualidade dos oceanos. Foram precisos milhares de milhões de anos para que a Terra atingisse um ponto em que se tornaria própria para viver. Em poucas décadas os humanos criaram problemas que interromperam estes processos básicos. As tempestades, a distribuição de água, a temperatura da água influenciam a economia de um país. As pessoas podem pensar que não interfere, mas trata-se de uma conexão básica. É como respirar; acreditamos que nos é garantido e que vamos consegui-lo sempre. Mas devemos repensar isso. Não é algo que devíamos tomar por garantido. Quando falamos da “economia azul” temos falamos da extração dos oceanos, o transporte de bens para sítios distantes e das atividades recreativas, que representam um grande peso na economia de vários países. Mas muitas pessoas olham para o oceano a pensar em quanto é que podemos extrair, quer seja petróleo, gás natural ou pescas. Mas se falharmos em tomar conta dos oceanos, nada disso importa.

Mas aquilo que retiramos dos oceanos é apenas uma parte do problema. Quais são os outros?

Há duas grandes categorias que podemos indicar como sendo os principais desafios aos oceanos: o que deitamos para os oceanos e o que retiramos. Quando falamos naquilo que deitamos ao mar, estamos a falar de todos os resíduos, plásticos e produtos tóxicos, que acreditamos que o oceano leva. No entanto, a verdade é que eles não vão a lado nenhum e voltam para nos atormentar. Já a outra categoria, sobre o que retiramos dos oceanos envolve as repercussões que isso vai ter para a nossa vida.

A Sylvia pode observar alguns dos efeitos da poluição na Barreira de Coral…

O que vemos é uma combinação de aumento da temperatura da água, poluição e extração de criaturas que vivem lá. A Barreira de Coral não são apenas corais. Podemos compará-la aos prédios numa cidade, com a particularidade de que estes estão vivos. Eles servem de abrigo para várias criaturas e são essenciais para o ecossistema. Nas cidades, precisamos dos transportes, das unidades de saúde, dos supermercados, dos coletores de lixo. Na Barreira de Coral acontece o mesmo. Se tirarmos os peixes, os corais vão ser afetados e, se tiramos os peixes, os corais vão sofrer também. Assim, como os computadores não são só ecrãs nem teclados, são todas as pequenas coisas que conjunto se tornam funcionais e por isso devemos tentar mantê-las intactas.

Considera que os governos mundiais têm feito o suficiente para protegê-los?

Acredito que a importância dos oceanos está cada vez mais a ser apreciada em todo o mundo, mas não por toda a gente. Até as pessoas perceberem a real importância dos oceanos, elas não estarão motivadas para fazer alguma coisa a respeito disso. Se não soubermos o que está a acontecer, não nos podemos preocupar. O que me motiva a mim é tentar fazer as pessoas verem por elas próprias. Nós não vemos o nosso coração, mas sabemos que é ele que nos mantém vivos. É preciso perceber também o porquê de os oceanos serem vitais.

O presidente Donald Trump anunciou o ano passado a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. Como reagiu a este anúncio?

Não sou a única a acreditar que precisamos de fazer tudo o que está ao nosso alcance para reverter as alterações climáticas que causámos e testemunhámos. O Acordo de Paris foi um passo na direção correta. Precisamos de fazer mais e não fazer menos. É só quando as pessoas se apercebem dos problemas que nos afligem, que os encaramos de forma mais séria, para assegurar a estabilidade do planeta. Parece-me claro que nem todos os líderes mundiais perceberam isso. As evidências estão aí à vista de todos os que as quiserem ver. Até uma criança consegue fazê-lo. O que estamos a fazer? Aonde queremos ir?

Uns dos argumentos apontados por Donald Trump para a saída do Acordo de Paris foi fazia os norte-americanos perderem muitos empregos e que este privilegiava outros países, como a China e a Índia…

As evidências não mostram isso. Eu mesma vi as evidências e isso não é uma conclusão válida. Todos podemos ver a realidade e todos podemos ignorá-la. Eu escolhi olhar e apoiar a verdade.

A Sylvia começou a sua carreira numa altura em que as mulheres não tinham as mesmas oportunidades que os homens e, ainda assim, tornou-se a primeira mulher cientista-chefe na National Oceanic and Atmospheric Administration. Como é que lidou com a desigualdade de género na altura?

É um problema que ainda se sente hoje, mas de uma forma menos intensa. Acredito que todos devemos fazer o nosso melhor com aquilo que temos. Há várias vantagens em ser mulher e nós devemos usar essas vantagens. Todos temos uma personalidade nos caracteriza. Se nos focarmos naquilo que queremos ser ou queremos fazer, veremos que tudo é possível. Os humanos estão dotados com o poder de decisão. Podemos escolher puxar os braços e desistir ou levantarmo-nos e darmos os primeiros passos. Eu escolhi não desistir.

Há pequenos passos que nos podemos tomar no nosso dia-a-dia para contribuir para um oceano mais saudável. Gostaria de mencionar alguns deles?

Todos temos uma voz na sociedade e podemos levar-nos e tomar partido em favor da proteção dos oceanos. Podemos fazê-lo individualmente, sem estarmos à espera que o nosso país ou outros o façam por nós. Temos de ter coragem e não nos sentirmos receosos com o que não podemos fazer, mas sim concentrarmo-nos no que podemos fazer.




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