Desejo um 2017 com uma única surpresa: que este Governo consiga sair deste marasmo e engano – crescimento inferior a 3% é apenas uma descida menos íngreme.

2016 foi um ano recheado de surpresas, umas disruptivas como o Brexit ou a eleição de Trump, que criaram o fardo da incerteza no futuro do panorama global económico e geopolítico.

Outras que nos tocam mais, como a extraordinária e inédita vitória desportiva por terras gaulesas pelos pés dos nossos guerreiros, num exemplo perfeito de crença, raça, esforço e união. Ou o excelente desempenho de Marcelo Rebelo de Sousa, que com um ou outro excesso, a fazer jus ao ditado “não há fome que não dê em fartura”, tem surpreendido os já descrentes num representante do povo que seja um factor de união e de estabilidade.

Ou mesmo a perícia política de António Costa, que contra as expectativas conseguiu manter a geringonça a navegar, muito também por culpa dos ventos de repúdio que foram criados pelo anterior governo junto dos partidos mais à esquerda que hoje suportam o actual executivo, mesmo que para isso tenham de olhar para o lado em inúmeros assuntos que vão contra os seus princípios básicos.

Por último, a surpreendente eleição de António Guterres para “chefiar” as Nações Unidas, o mais alto cargo político a nível global que, para além de inédito, quanto mais não seja repõe alguma da credibilidade internacional perdida aquando da crise de dívida soberana de 2011.

Infelizmente, foram as “não” surpresas que decepcionaram estrondosamente: o cenário político em Portugal continua igual a si mesmo, muita politiquice com olhos nos próprios bolsos e pouco ou nada em prol do cidadão.

Economicamente, este Governo apenas seguiu o que já vinha do ano transacto, ou seja, não mexe ou mexe exiguamente, sendo certo que se a PàF tivesse continuado a gerir os destinos do país, voltaria à sua política de talhante em prol do liberalismo de interesses, após um ano de interregno eleitoralista.

A saúde mantém-se sub-orçamentada, o desemprego em níveis insustentáveis, a generalidade dos ordenados nivelados pelo mínimo, a pobreza continua a existir e pior que tudo, a esperança continua desaparecida. Para os que dizem que leva tempo, recordo que tempo é o que ninguém tem a mais e o que não se recupera. O tempo não vale os seus segundos em ouro – é simplesmente impagável.

É essencial deixar de acreditar em conversa da treta, de que estamos a melhorar. Não, não estamos! Nem estaríamos com a PàF. O problema é transversal à actual classe política, é preciso outro paradigma, 2017 será certamente um ano de inúmeros desafios, uma nova crise de dívida pública dificilmente será evitada, os juros estão no limiar do precipício, o BCE no limite da sua actuação.

Após sete anos de uma subida vertiginosa, o mercado accionista internacional encontra-se numa fase pivotal. Caso, como se prevê, o novo ano traga uma correcção acentuada, Portugal terá mais um obstáculo a vencer – e não será com as pseudo políticas pró-emprego ou os fantasiosos programas pró-investimento que enchem conversas, mas não fazem nada pela economia.

Desejo, por isso, um 2017 com uma única surpresa: que este Governo consiga sair deste marasmo e engano – crescimento inferior a 3% é apenas uma descida menos íngreme. O paradigma tem de ser outro, o maior valor acrescentado tem de ser o único objectivo e, para isso, é preciso promover um fomento decisivo do mercado de capitais e apoiar o investimento estrangeiro como se fosse o oxigénio que respiramos. Se assim não for, será mais um ano negro para todos os desfavorecidos, desempregados ou escravos do ordenado mínimo, negro porque será não de vivência mas de sobrevivência, algo que os Barões de São Bento desconhecem.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

 



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