SPQE: o Senado e o Povo Europeus

Os argumentos populistas são o moderno canto das sereias, perante o desconsolo da falta de soluções para os problemas económicos e sociais das famílias e o acentuar das desigualdades.

Se a União Europeia fosse uma equipa, diríamos que está em estágio. A menos de um mês temos as eleições na Holanda, as primeiras de um triatlo (seguem-se França e Alemanha) assassino: basta uma derrota numa – ou melhor, uma vitória do populismo – para muita coisa ficar em causa. Não que isto não esteja já a ser business as usual; o estado de coisas atual não começou com o Brexit e Trump, começou com Varoufakis e o Podemos. Se a Grécia melhorou desde que Tsipras se livrou do iluminado, a Espanha ter ficado um ano sem governo e ter tido uma boa performance económica só acentuou as dúvidas sobre o valor acrescentado da governação. É inútil tentar explicar porque tudo isto aconteceu, pois os argumentos populistas são o moderno canto das sereias, perante o desconsolo da falta de soluções para os problemas económicos e sociais das famílias e o acentuar das desigualdades. Tudo o que requer mais que um tweet a explicar passa por desculpas de mau perdedor ou pura mentira.

Não é só na União que a tentação de ceder aos profetas da felicidade é grande. No referendo suíço de domingo foi rejeitada por 60-40 uma reforma fiscal que visava responder às críticas sobre o paraíso fiscal em que o país se tornou. A reforma previa eliminar a reduzida taxa de imposto sobre os lucros, que beneficiava 24 mil empresas estrangeiras, e criava incentivos fiscais para manter alguma atratividade; foi mote na campanha que era um presente às multinacionais a expensas do contribuinte. O Comissário Moscovici disse-se muito desapontado com este resultado, o que não tirou o sono aos suíços – o presidente do PS suíço tweetou que foi uma derrota da arrogância e do clientelismo. Agora, alternativas procuram-se.

Preocupadas com a deriva populista, as multinacionais holandesas Unilever, Shell, Philips, Delhaize e Friesland Campina lançaram uma iniciativa “contra o negativismo crescente”, convictas que “o populismo é um sintoma da falta de progresso” e não fonte de criação deste. Querem lançar “um movimento de pessoas e empresas” que “se focalize no problema alimentar, na gestão da água, no envelhecimento da população, na urbanização e na questão energética” e assim “responda ao populismo”. É vago, mas não é mais vago do que prometem Le Pen e colegas.

Ao mesmo tempo, o Parlamento Europeu parou no Brexit, a discutir um relatório sobre uma reforma que levaria a uma espécie de política orçamental europeia, na altura em que muitos eleitores europeus já não acreditam em Bruxelas. Se o projeto europeu está hoje em risco, uma das razões é porque já foram dados demasiados saltos no escuro – citando Lord Birkenhead, “ele [Baldwin] deu um salto no escuro. Depois olhou à volta e deu outro.” Só que desta vez não é a altura de dar mais um.

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